logo preto

Zazen Yôjinki - (A que Estar Atento em Zazen)

Texto do Mestre Keizan Jokin Zenji para estudo em agosto de 2014
GEB - Grupo de Estudos Budistas (domingos 20h)
Curso de Introdução ao Zen Budismo (terças 20h)​
​Curso de Preceitos (quartas 20h)​

Manual de meditação do Mestre Keizan Jôkin (Japão, 1264 - 1325)

Zazen significa clarificar a mente e descansar tranquilamente na sua natureza presente. Isto é chamado "revelar a si mesmo" e "manifestar a base verdadeira".

Corpo e mente abandonados, sem apego a formas como sentar ou deitar. Sem pensar no bem, sem pensar no mal, transcendendo o comum e o sagrado. Além de todos os conceitos sobre ilusão e iluminação, passando através das barreiras entre seres comuns e Budas.

Sem fazer nada, deixe de lado todas as preocupações, desapegando-se de tudo.

Não fabrique coisa alguma a partir dos seis sentidos.

Quem é este? Seu nome nunca foi conhecido. Não pode ser considerado corpo, não pode ser considerado mente. Tentando pensar sobre isto, o pensamento se esvai. Tentando falar sobre, palavras somem.

Como um bobo, como um tolo. Tão alto como uma montanha, tão profundo como o oceano. Não mostra seu pico mais elevado nem suas invisíveis profundezas.

Brilha sem pensar.

A fonte é clara em explicação silenciosa.

Ocupando o céu e a terra, o seu próprio corpo se manifesta completo e só — uma pessoa de incomensurável grandeza, como quem tenha completamente morrido, cujos olhos não se embaçam por nada, cujos pés não são suportados por nada.

Onde há alguma poeira? Qual é a barreira? Água pura nunca teve frente nem costas, espaço nunca terá dentro ou fora. Clara como cristal e naturalmente brilhante antes da forma e do vazio se separarem — objetos e a mente em si não têm espaço para existirem.

Sempre esteve conosco, mas nunca teve um nome. O terceiro Ancestral Fundador, um grande mestre, temporariamente o chamou "mente". O Venerável Nagyaharajuna provisoriamente o chamou "corpo". Essência e forma iluminadas, manifesta nos corpos de todos os Budas, é simbolizada pela lua cheia: nada falta, nada excede.

Esta mente é em si mesma Iluminação.

Sua luz brilha através do passado e se irradia até o presente.

Nagyaharajuna usou este símbolo sutil para o samádi de todos os

Budas. Mas a mente é sem sinais, sem dualidade, embora formas possam diferir em aparência.

Apenas mente, apenas corpo. Não é questão de igualdade ou diferença. A mente se transforma em corpo e, quando o corpo surge, parecem separados. Quando uma onda se move, dez mil ondas a seguem. No momento em que a discriminação mental surge, milhões de coisas vêm à tona.

Isto quer dizer que os quatro elementos básicos e os cinco agregados (Skandas) eventualmente se combinam e os quatro membros e cinco sentidos aparecem. E assim por diante, em relação às 36 partes do corpo e 12 relações causais da interdependência. Quando a fabricação mental surge, desenvolve continuidade, mas ainda existe apenas devido ao agrupamento de miríades de fenômenos.

A mente é como a água do oceano e o corpo como as ondas. Não há ondas sem água e não há água sem ondas. Água e onda não são separadas, movimento e quietude não são diferentes. Diz-se: "o ser verdadeiro indo e vindo, vivendo e morrendo, é o corpo indestrutível dos quatro elementos e dos cinco agregados (skandas)".

Zazen é penetrar diretamente no oceano da Natureza-Buda(1), e manifestar o corpo de Buda. A mente pura e clara é autenticada no momento presente e a luz verdadeira brilha em toda parte. O oceano não aumenta nem diminui e as ondas nunca cessam.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Assim, os Budas aparecem no mundo apenas com o propósito de fazer com que as pessoas realizem a sabedoria e a visão da iluminação.

Sempre tiveram uma arte impecável e sutil, chamada Zazen — apenas sentar na prática pura e tranquila do "Samádi Que Se Auto Completa" (Jijiyu Zanmai – em jap.), penetrando o "Rei dos Samádis" (Oo Zanmai – em jap.). Se alguém mesmo por uma só vez penetrar esse samádi, despertará e realizará que este é o portão principal do Caminho dos Budas.

Aqueles que querem clarificar o solo da mente devem abandonar a mistura de conhecimentos confusos, interpretações, ideias de comum e sagrado, cortar todos os sentimentos delusivos e manifestar a mente verdadeira e real. As nuvens de ilusão se dispersam e a mente-lua brilha.

Buda disse: "Aprender e pensar são como estar fora da porta. Zazen é voltar ao lar para se sentar em tranquilidade". Como isto é verdadeiro! Aprendendo e pensando, os pontos de vista não param e a mente fica atolada. Por isto é estar do lado de fora. Em zazen, tudo se tranquiliza e ainda assim penetra toda parte. É como voltar ao lar e se sentar em paz.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

As aflições dos cinco obstáculos (ganância e sensualidade, raiva e ódio, loucura e delusão, adormecimento, excitação e arrependimento) todos vêm da ignorância. Ignorância significa não compreender a si mesmo. Zazen é compreender a si mesmo. Mesmo que tenha se libertado dos cinco obstáculos, se não eliminar a ignorância, você não é um Buda Ancestral. Se quiser eliminar a ignorância, para discernir o caminho, zazen é a chave essencial.

Um antigo disse: "Quando a confusão cessa, a tranquilidade vem, a sabedoria surge. E quando a sabedoria surge, a realidade pode ser vista". Se você quer dar fim à ilusão, deve deixar de pensar no bem e no mal e deve abandonar toda atividade. A mente sem pensar e o corpo sem fazer nada são o ponto essencial.

Apegos delusivos terminam e a ilusão desaparece. Quando a ilusão desaparece, a essência é revelada e você sempre a compreende. Não é quietude, não é atividade.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Evite todas as artes e artesanatos, prescrições médicas e augúrios, assim como canções, música e dança, disputas, conversas fúteis, fama e fortuna, honra e lucro. Poesia e canções podem ajudar a clarificar a mente, mas não seja pego por elas. Abandonar caligrafia e escrita é o precedente superior das pessoas do Caminho, a melhor maneira de harmonizar a mente.

Não se apegue nem a roupas finas nem a trapos velhos. Roupas finas instigam ganância e o medo de roubo. Assim se tornam um obstáculo. Recusá-las é considerado excelente desde os tempos antigos. Mesmo que você tenha roupas finas, não se preocupe com elas. Se alguém as roubar, não vá correndo atrás do ladrão.

Roupas velhas, limpas e remendadas devem ser usadas, mas se você não se livrar da sujeira poderá ficar doente ou com frio. Isto também pode se tornar um obstáculo. Embora não devamos ficar ansiosos por nossas vidas, se roupas, comida e sono não forem suficientes, são chamados de "três insuficiências" e são causas de regressão.

Coisas vivas, coisas duras e coisas estragadas (comida impura) não devem ser ingeridas. Com a barriga se mexendo e fazendo barulhos, com desconforto e calor no corpo e na mente, haverá dificuldade em sentar.

Não se deve indulgir no apego a comidas finas, não apenas pelo possível desconforto que podem causar a corpo e mente, mas para evitar a ganância. Devemos comer apenas o suficiente para mantermos nossa vida. Não se preocupe tanto com o sabor. Se fizer zazen com a barriga cheia, poderá até ficar doente.

Após as refeições, tanto grandes quanto pequenas, não se sente (em zazen) imediatamente. Ao contrário, espere um pouco antes de fazer zazen. Geralmente monges mendicantes devem ser moderados ao comer. Isto significa limitar suas porções — comer dois terços e deixar um terço.

Todos os medicamentos tradicionais, como o gergelim e o inhame selvagem, podem ser ingeridos. Esta é a técnica fundamental para harmonizar corpo-mente.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Quando sentado em zazen, não se encoste ou apoie em nenhuma parede, encosto, suporte para meditação ou telas. Também não se sente em locais de muito vento ou locais altos de grande exposição ao sol e ventanias. Estas podem ser causas de doenças. Quando em zazen, seu corpo pode parecer às vezes quente ou frio, confortável ou desconfortável, às vezes duro, às vezes solto, às vezes pesado, às vezes leve, às vezes perfeitamente acordado. Tudo devido à respiração não estar regulada. Esta deve ser regulada.

Esta é a maneira de regular a respiração: abra sua boca, percebendo como está a respiração — longa ou curta. Naturalmente ela se harmonizará. Siga a respiração por alguns momentos. Quando a sensação de estar consciente surgir, a respiração está regulada. Depois disso, deixe-a seguir normalmente pelas narinas.

A mente pode parecer afundar ou boiar. Às vezes parece esperta, outras vezes estúpida. Às vezes você poderá ver através das paredes, fora da sala, outras vezes poderá ver através de seu corpo, ou ver formas de Budas e Bodisatvas. Às vezes compreende escrituras ou tratados. Coisas como estas são doenças causadas pela desarmonia entre a consciência e a respiração.

Quando estas coisas acontecerem, sente-se com a atenção repousando em seu colo. Se a mente afundar em torpor, coloque sua atenção entre os olhos, onde começa o cabelo (cerca de oito centímetros acima do centro de suas sobrancelhas). Se sua mente estiver distraída, pulando de um pensamento a outro, foque a atenção na ponta do nariz ou na parte baixa do abdômen (quatro centímetros abaixo do umbigo – tanden, em japonês).

Em geral, ao sentar coloque a mente na palma de sua mão esquerda. Se sentar por muito tempo, mesmo sem forçar a mente a se acalmar, ela naturalmente não ficará espalhada por toda parte.

Agora, em relação aos ensinamentos antigos, embora sejam lições para iluminar a mente, não os leia, escreva ou ouça em excesso. Fazê-lo em demasia pode perturbar e dispersar a mente, chegando inclusive a provocar doenças.

Não faça zazen onde há incêndios, enchentes, bandidos, nem próximo do mar, nem perto de bares, casas de prostituição ou locais onde viúvas, virgens ou jovens estejam cantando. Não fique perto de reis, oficiais importantes, pessoas poderosas ou pessoas cheias de luxúria ou desejosas de nome e fama, contadores de histórias ou daqueles que gostam de discutir à toa.

Sobre os serviços budistas para as massas e projetos de grandes construções, embora sejam coisas boas, quem apenas se concentra em zazen não deve se envolver com elas.

Não se apegue a pregar ou ensinar, pois as distrações e pensamentos dispersivos vêm daí. Não sinta prazer em multidões nem procure discípulos. Não estude nem pratique muitas coisas.

Não se sente em lugares extremamente claros ou escuros, extremamente frios ou quentes, entre biscateiros ou onde morem pessoas que procuram prazeres fáceis. Você pode permanecer em um mosteiro onde haja um verdadeiro mestre, nas profundezas das montanhas ou nos refúgios dos vales.

A margem de águas claras e montanhas verdes são os locais ideais para se praticar kinhin. Perto dos riachos, sob as árvores, são os locais para clarificar a mente. Observe a impermanência, nunca a esqueça — faça surgir a vontade de alcançar a iluminação.

Sente-se sobre algo grosso para ficar confortável. O local de prática deve estar limpo. Sempre queime incenso e ofereça flores. Os bons espíritos que guardam o verdadeiro ensinamento, assim como os Budas e Bodisatvas, o protegerão. Se colocar a imagem de um Buda, Bodisatva ou de um Venerável, nenhum espírito maligno ou demônio o apanhará.

Viva sempre em grande compaixão e dedique o poder infinito do zazen a todos os seres.

Não se torne orgulhoso, presunçoso ou arrogante da sua compreensão do Darma — estas são qualidades de pessoas comuns, pessoas de fora do Caminho. Lembre-se do voto de terminar com o sofrimento, o voto de realizar a iluminação. Apenas sentar, sem fazer nada, é a técnica essencial de penetrar o Zen.

Sempre lave os olhos e os pés antes do zazen. Com o corpo e a mente à vontade e o comportamento harmonioso, abandone sentimentos mundanos e não se apegue a sensações sublimes sobre o Caminho.

Embora não se deva ser avaro com os ensinamentos, não fale a menos que lhe perguntem. Então espere por três pedidos e responda se houver um quarto pedido verdadeiro. De dez coisas que possa dizer, deixe nove sem falar. Mofo crescendo em volta da boca, como um leque no inverno, como um sino ao vento, sem questionar de que direção o vento vem — estas são características das pessoas do Caminho.

Apenas vá pelo princípio do ensinamento, sem selecionar as pessoas. Vá pelo Caminho e não se congratule — este é o ponto mais importante a relembrar.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Zazen não se baseia em ensinamento, prática e realização. Ao contrário, ensinamento, prática e realização estão todos contidos em zazen. Avaliar a realização baseando-se em alguma noção de iluminação não é a essência do zazen. Praticar baseando-se em aplicar esforço não é a essência do zazen. Ensinamento baseado em libertar-se do mal e cultivar o bem não é a essência do zazen.

No Zen há ensinamentos, mas não o ensinamento comum. Zen é apontar diretamente, expressar o Caminho, falar com todo o corpo.

Tais palavras não são sentenças nem frases. Onde os pontos de vista terminam e os conceitos são exauridos, a palavra única permeia as dez direções sem perturbar nem mesmo um fio de cabelo. Este é o verdadeiro Ensinamento dos Budas Ancestrais.
Embora falemos de "prática", não é uma prática a ser feita. Isto quer dizer: o corpo não a faz, a boca não recita, a mente não fica pensando e pensando, os seis sentidos são deixados à sua própria claridade e não são perturbados.

Não são os dezesseis estágios de prática dos ouvintes do Darma (sravakas). Não é a prática da compreensão da corrente de doze elos da origem dependente dos que praticam sozinhos, isolados (pratyekabudas) (2). Também não são as seis perfeições, os seis paramitas, nem as inúmeras práticas dos Bodisatvas.

É sem esforço, sem luta, e por isso chamado de Acordar ou Iluminar.

É apenas descansar no "Samádi que Se Auto Completa" (Jijiyu Zanmai – em japonês), alegremente percorrendo as quatro práticas de paz e de bênçãos dos bodisatvas.

Esta é a inconcebível e profunda prática dos Budas Ancestrais.

Embora falemos de "realização", esta não se apega a si mesma como sendo "realização". É a prática do Samádi Supremo (Oo Zanmai – em japonês) conhecido como não nascido, não obstruído.

Espontaneamente surge a Compreensão Superior. É o portal de claridade suprema que se abre na realização do Tathagatha (3), nasce da prática do grande bem estar. Vai além do sagrado e do profano, além da delusão e da sabedoria. Esta é a iluminação suprema (Anokutara Sammyaku Sambodai). Esta é a nossa própria natureza.

Zazen também não se preocupa com disciplina, concentração ou sabedoria, mas contém os três.

Disciplina e preceitos são para prevenir o erro e fazer cessar o mal.

Em zazen, vemos tudo de maneira não dualista, deixando de lado todos os desdobramentos. Sem preocupação se o caminho é budista ou mundano, esquecendo-se dos sentimentos sobre o Caminho e dos sentimentos mundanos, sem afirmar nem negar, sem bom nem mau — o que poderia obstruir? Esta é a disciplina sem forma da mente.

Concentração significa contemplação sem divisões. Zazen é abandonar corpo e mente, transcendendo compreensão e confusão.

Imutável, imperturbável, sem agir, sem delusão, como um tolo, como um bobo. Como uma montanha, como um oceano. Sem traços nem de movimento nem de imobilidade — concentrado sem nenhum sinal de concentração. Porque não possui objeto de concentração é chamado de grande concentração.

Sabedoria é geralmente compreendida como sendo o claro discernimento. Em zazen, todo conhecimento desaparece por si só. A mente e a consciência discriminatória são completamente esquecidas.

O olho de sabedoria através do corpo todo não tem diferenciação, mas vê claramente a essência do estado de Buda. Desde o princípio livre de confusão, corta todos os conceitos. Sua luminosidade abrangente e clara permeia tudo. Esta é a sabedoria sem nenhum sinal de sabedoria e por isto mesmo é chamada de Grande Sabedoria.

Os ensinamentos que os Budas expuseram durante todas suas vidas são apenas: disciplina (moralidade, preceitos – "kai" em jap.), concentração (meditação, prática –"jo" em jap.) e sabedoria (mente- Buda – "e" em japonês). Neste zazen não há preceito que não seja mantido, não há concentração que não seja cultivada, não há sabedoria que não seja realizada. Conquistar os demônios da confusão, obter o Caminho, girar a Roda do Darma e retornar ao "sem marcas", tudo depende deste poder. Poderes sobrenaturais e suas funções inconcebíveis, emanar luz e expor os ensinamentos — tudo está presente neste zazen. Penetrar Zen é zazen.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Para zazen, primeiro escolha um local quieto e coloque um forro grosso no chão. Não permita que vento, fumaça, chuva ou orvalho entrem. Mantenha um espaço adequado para sentar e colocar os joelhos. No entanto, em tempos antigos havia quem usasse diamantes ou rochas como almofadas. O local não deve ser nem muito claro durante o dia nem muito escuro à noite. Deve ser quente no inverno e fresco no verão. Esta é a técnica.

Abandone mente, intelecto e consciência. Pare de relembrar, pensar e observar. Não espere se tornar um Buda, não se preocupe com certo e errado. Dê valor ao tempo, como se estivesse salvando sua cabeça do fogo.

Buda sentou-se com a coluna reta, Bodidarma virado para a parede, com a mente em foco, sem nenhuma preocupação. Sekito (Shishuang em chinês) era como uma árvore morta. Tendo Nyojo advertia contra dormir em zazen e ensinava: "Você pode alcançar a realização apenas se sentando, sem necessidade de queimar incenso, fazer reverências, relembrar o nome dos Budas, fazer cerimônias de arrependimento, ler escrituras ou fazer rituais de recitação".

Ao sentar-se , deve-se sempre usar uma okesa, exceto durante a primeira e última parte da noite, quando a programação diária não é válida. Não seja descuidada (o).

O zafu (almofada) não deve sustentar a coxa inteira, mas apenas da metade até a base da espinha. É assim que os Budas e Ancestrais se sentaram. Você pode se sentar em meio lótus ou lótus completo.

A maneira de sentar em lótus completo é colocar o pé direito na coxa esquerda e o pé esquerdo na coxa direita. Afrouxe suas roupas, mas deixe-as bem arrumadas. Em seguida, ponha sua mão direita sobre o pé esquerdo e a mão esquerda sobre a mão direita, com os polegares se tocando levemente, próximos do corpo, na altura do umbigo. Sente-se bem ereto, sem pender para a direita ou a esquerda, para frente ou para trás. As orelhas com os ombros e o nariz com o umbigo devem estar alinhados. A língua é colocada no céu da boca. Respira-se pelas narinas. A boca deve estar fechada e os olhos abertos, embora não completamente. Tendo equilibrado seu corpo desta forma, respire profundamente pela boca algumas vezes. Em seguida, ainda sentado, balance o tronco sete ou oito vezes, passando de movimentos largos para movimentos menores. Então, sente-se reto e alerta.

Agora pense não pensar. Como pensar assim? Indo além do pensamento. Essa é a essência do zazen. Atravesse diretamente os obstáculos e penetre a intimidade do Grande Despertar.

Quando quiser se levantar, primeiramente ponha as mãos sobre os joelhos, mova seu corpo sete ou oito vezes, indo de movimentos pequenos a movimentos mais largos. Expire profundamente pela boca, coloque as mãos no chão e se levante lentamente.

Ande vagarosamente, circulando da esquerda para a direita.

Se torpor ou adormecimento o vencerem quando sentado, mova seu corpo ou abra mais os olhos. Você também pode colocar a atenção entre as sobrancelhas, na linha do cabelo. Se mesmo assim ficar adormecido, esfregue seus olhos e corpo. Se mesmo assim não acordar, levante-se e ande, sempre caminhando em círculos em sentido horário. Depois de haver andado uns cem passos, seu adormecimento deverá ter desaparecido.

A maneira de andar (o Kinhin) é dar meio passo com cada respiração. Andar como se não estivesse andando, em silêncio e imóvel.

Se não acordar após andar, pode lavar os olhos ou refrescar a testa, ou recitar o prefácio dos preceitos do bodisatva ou qualquer outra coisa. Apenas encontre uma maneira de não adormecer.

Você deve observar que o assunto de vida-morte é de suprema importância, e a impermanência, rápida. O que está fazendo dormindo, quando seu olho do Caminho ainda não está completamente claro?

Se torpor e adormecimento vierem repetidamente, você deve rezar: "Meus hábitos são profundos e por isto estou envolvido por adormecimento. Quando meu torpor se dispersará? Rogo aos Budas Ancestrais que tenham compaixão e removam minha escuridão e miséria".

Se sua mente estiver dispersa, fixe na ponta de seu nariz ou no baixo abdômen (tanden). Conte as inspirações e expirações. Se a distração ainda assim não cessar, traga um dizer à mente e mantenha este dizer em sua mente para acordá-la. Por exemplo: "O que é como é?", "O cachorro tem a Natureza-Buda? Mu!", "Quando nenhum pensamento surge, onde está a aflição? No Monte Sumeru" (4), "Qual o sentido de Bodidarma vir do oeste? O cipreste no jardim". Kôans como estes são apropriados.

Se ainda assim ficar com a mente dispersa, sente-se e focalize o ponto onde a respiração termina e os olhos se fecham para sempre. Ou ainda, onde o embrião ainda não foi concebido e nenhum pensamento é produzido. Quando o vazio duplo de sujeito e objetos subitamente aparecer, a mente dispersa certamente descansará.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Ao sair da imobilidade, faça suas atividades sem hesitar. Este momento é o kôan.

Quando prática e realização são sem complexidade, então o momento presente é o kôan. Aquilo que existe antes de qualquer sinal aparecer, do outro lado da destruição do tempo, a atividade de todos os Budas Ancestrais é apenas isto.

Você deve apenas descansar, cessar, ficar tranquilo, passar miríades de anos em um só instante. Torne-se cinzas frias, uma árvore morta, um pote de incenso em um templo antigo, um pedaço de seda branco.

Esse é o meu desejo mais profundo.

1. Natureza Buda - O potencial para realizar iluminação, inato em todas as

coisas. Literalmente, natureza iluminada.

2. Ensinamentos dos sravakas e pratyebuddhas. Sravakas são pessoas que se esforçam

para se tornarem aracãs (arhat), isto é, alcançarem a iluminação para si mesmos, sem

se preocuparem em salvar os outros. Pratyekabuddhas são pessoas que alcançam a

iluminação por meio de estudos independentes, sem a orientação de um mestre. Eles

também não se preocupam em salvar os outros.

3. Um dos epítetos de Buda, literalmente "Aquele que Vem e que Vai do Assim como É" - a

realidade absoluta que transcende a multiplicidade de formas do mundo dos fenômenos.

4. O Monte Sumeru é considerado o topo do mundo

Texto do livro:
"Zazen: a prática essencial do Zen", organização: Monja Coen Roshi