Monja Coen Roshi

Zenbudismo na vida e no trabalho

Texto de Leonardo Boff - Teólogo

O zenbudismo pode significar uma fonte inspiradora para o paradigma
ocidental em crise bem como para a vida cotidiana. Isso porque o zen não é
uma teoria ou filosofia. É uma prática de vida que se inscreve na tradição
das grandes sabedorias da humanidade. O zen pode ser vivido pelas mais
d iferentes pessoas, simples donas de casa, empresários e pessoas religiosas
de diferentes credos.

O centro para o zenbudismo não está na razão, tão importante para a nossa
cultura ocidental. Mas na consciência. Para nós a consciência é algo mental.
Para o zenbudismo cada sentido corporal possui a sua consciência: a visão, o
olfato, o paladar, a audição e o tato. Um sexto é a razão. Tudo se
concentra em ativar com a maior atenção possível cada uma destas
consciências, a partir das coisas do dia-a-dia. Possuir uma atitude zen é
discernir cada nuance do verde, perceber cada ruido, sentir cada cheiro,
aperceber-se de cada toque. E estar atento às perlambulações da razão no seu
fluxo interminável.

Por isso, o zen se constrói sobre a concentração, a atenção, o cuidado e a
inteireza em tudo aquilo que se faz. Por exemplo, expulsar um gato da
poltrona pode ser zen; também libertar os chacorros do canil e deixá-lo
correr pelo no jardim. Conta-se que um guerreiro samurai antes de uma
batalha visitou um mestre zen e lhe perguntou: ³que é o céu e o inferno²? O
mestre respondeu: ³para gente armada como você não perco nenhum minuto². O
samurai enfurecido tirou a espada e disse:²por tal senvergonhice poderia
matá-lo agora mesmo². E ai disse-lhe calmamente o mestre:²eis ai o inferno².
O samurai caiu em si com a calma do mestre, meteu a espada na bainha e foi
embora. E o mestre lhe gritou atrás:²eis ai o céu.²

O que a atitude zen visa, é a completa integração da pessoa com a realidade
que vive.
Deparamo-nos no meio de difenças, compartimentando nossa vida. O
zen busca o vazio. Mas esse vazio não é vazio. É o espaço livre no qual tudo
pode se formar. Por isso não podemos ficar presos a isto e àquilo. Quando um
discípulo perguntou ao mestre:²quem somos²? respondeu apontando simplemente
para o universo: ³somos tudo isso². Você é a planta, a ávore, a montanha, a
estrela, o inteiro universo. Quando nos concentramos totalmene em tais
realidades, nos identificamos com elas. Mas isso só é possível se ficarmos
vazios e permitirmos que as coisas nos tomem totalmente. O pequeno eu
desaparece para surgir o eu profundo. Então somos um com o todo. Este
caminho exige muita disciplina. Não é nada fácil ultrapassar as flutuações
de cada uma das consciências e criar um centro unificador.

Há uma base cosmológica para a busca desta unidade originária. Hoje sabemos
que todos os seres provém dos elementos físicoquímicos que se forjaram no
coração das grandes estrelas vermelhas que depois explodiram. Todos
estA 1vamos um dia juntos naquele coração incandecente. Guardamos uma memória
cósmica desta nossa ancestraidade.


Depois, sabemos também que possuimos o mesmo código genético de base
presente em todos os demais seres vivos. Viemos de uma bactéria primordial
surgida há 3,8 bilhões de anos. Formamos a única e sagrada comunidade de
vida.

Ao buscar um centro unificador, o zen nos convida a fazer esta viagem
interior. É excusado dizer que tudo isso vale para todos mas principalmente
para mim.

Leonardo Boff é autor de Tempo de Transcendência: o ser humano como projeto infinito, Vozes 2009.