Monja Coen Roshi

Resumo Taiko

Anexo os estudos da monja Waryu (Marta Lages) sobre os textos de Mestre Dogen Zenji, que foram passados para monges e monjas, leigos e leigas estudar, em julho de 2016.
Ela foi a primeira (e entre monges e monjas a única) a me enviar seus estudos.
Que seja exemplo e incentivo a todos que querem se aprofundar no Darma de Buda.
Monja Coen

Os textos a seguir foram escritos como instrumento de reflexão sobre temas discutidos no Primeiro Seminário de Monásticos Alunos de Monja Coen, realizado no final de Junho de 2016. São baseados em dois textos de Mestre Dogen. Espero que sejam úteis.

TEXTO 1 - O Darma de Encontrar um Mais Antigo

A) Resumo ou Organização por temas das regras do texto sobre o “Darma de Encontrar um Mais Antigo” (os números se referem à numeração das regras no texto original)
As regras podem ser assim classificadas:
a) Uso da Okesa: 1-2-53
b) Regras de etiqueta de ações físicas (dever fazer e abster-se de fazer): 3-4-5-9-10-11-12-16-17-19-20-21-22-23-44 (risadas), 55. Acrescente-se (d) abaixo.
Ex: Pernas cruzadas\recostar corpo, mãos balançando ou penduradas, rir descuidado.
c) Sobre Sentar-se: 12-13-14-16
d) Primazia do Taiko, recomendações ou proibições na rotina das ações habituais diárias: 37 (proibição), 38,39,40,41. Trabalho mais árduo ou mais agradável: 30
e) Manter a altura e a distância para demonstrar respeito: 13-14-16
f) Mente de humildade, agradecer lição ou admoestação: 7-8-18, 23 (aguardar instruções)
g) Não criticar ou ridicularizar Taiko—44 (diante do erro do Taiko), 18 -54 (não questionar ou discutir).
h) Ações com a boca (sem incluir fala ou voz): rir, bocejar, suspirar etc: 5 (rir), 10 (cuspir), 19 (bocejar),21 (suspirar),44
h) Uso da voz, falar na presença ou dirigir-se ao Taiko: 3, 4, 11, 18 (jamais discutir), 24, 25, 26, 32, 34,35 (não falar mal), 36, 54
i) Aprofundar no Darma ou ouvir o ensinamento: 25, 32,54. Orientação do Taiko:23
j) Permissão para ensinar o Darma – 25 (Aqui se refere apenas a uma situação em que umTaiko esteja presente? Dito de forma grosseira: “não ensinar, não se arvorar em professora quando há um mais antigo presente?)
k) Observar para atender: 27
l) Ouvir o Taiko: 25, 26, 42.
m) Cuidar do Taiko: 33 (doença) 43, 44,54,
n) Reverências: 16, 23 (abaixe a cabeça e aguarde) 28 (a outrem),29 (aceitar de outrem), 31 (demonstrar respeito?), 42 (não é o foco),56,57,58. Veja item (e) acima.
o) Aposentos do Taiko: 45, 24, 46-47 (respeito ao entrar e sair), 53
p) Taiko e outras pessoas presentes: 35, 50, 51,52.
q) O Mestre do Monge, Outros Taikos, e seus discípulos (como se define um Taiko? E regras de relacionamento mais complexas) – 06, 15, 59,60,61 (Obs: 6- Demanda a elucidação do capítulo de “Darma de servir seu mestre” – iguala etiqueta e atitude em relação ao Mestre na relação com o Taiko). 15- Explica posições de acordo com o tempo de treinamento – não está claro se é isto o que “define um Taiko”.

B) Reflexão: Universalidade e Particularidade do Respeito: A quem prestar reverências? (Texto inconcluso: Comentários Imaturos e prematuros sobre Taiko – Darma de encontrar um mais antigo)
Parte 1 - Introdução
Humildade, gratidão, respeito e comportamento correto são as qualidades fundamentais a serem cultivadas ou realizadas para que O Darma de Encontrar os Mais Antigos se estabeleça. O texto é claramente direcionado a monges, pois menciona, desde a primeira regra, que aquele que deve praticar é uma pessoa que usa uma Okesa.
A partir destas qualidades, que são citadas casualmente no texto de Mestre Dogen, podemos derivar as regras que são estabelecidas no texto - ou a atitude no encontro infinito com o Taiko no instante (baseando-se assim não mais em uma formalidade prevista, mas na essência do respeito em relação ao Buda-Darma-Sanga).
É evidente que a função destas regras explicitadas, além de estabelecer um campo de treinamento (Pois é um “Darma” ao qual o monge deve estar atento), é também convencionar uma etiqueta que padronize e organize os relacionamentos em um Mosteiro ou Templo, ou em qualquer lugar onde haja um encontro entre Monges que pretendem viver de acordo com “O Doce Orvalho da Imaculada Lei suprema de Buda Shakyamuni”.
Por que ler um texto do século XIII sobre regras monásticas estabelecidas como atemporais por um Mestre temporalmente localizado? E por que um texto sobre Despertar para a Mente Iluminada nos parece tão mais interessante que um texto de regras?
A pergunta que me surge no entrelugar desta pessoa que sou, oscilando entre reconhecer a necessidade de regras e a aversão que um texto de normas e regras de comportamento estabelecidas de forma tão hierarquizada me causa é: Quem você respeita? E como demonstra este respeito? O texto trata de estabelecer regras em que as 3 citadas qualidades e o comportamento correto possam ser claramente demonstradas nas atitudes, no controle do corpo e de suas necessidades (se abstendo de ações físicas como coçar, cruzar pernas, bocejar, suspirar, desejar se encostar ou perder o alinhamento da postura). Várias regras são estabelecidas em relação à reverência. Ou seja, trata-se de texto como um Código de Conduta e de Etiqueta, mas não se restringe a isso, pois como todo o legado de Mestre Dogen, tem pontos de fulgurância que ampliam a compreensão daquilo que aparentemente apenas está sendo prescrito e implicam, além de seu próprio Eu, aquele ou aquela que escuta.
As regras do Vinaya Pittaka (Código de Regras Monásticas Budistas) foram relativizadas ao longo dos séculos e adaptadas na tradição Mahayana para servirem ao Darma do tempo e do mundo. Mesmo os monges da Tradição Theravada hoje, século XXI da era cristã, precisam se adaptar ao imperativo do espírito do tempo e espírito do lugar (seu zeitgeist e ortgeist), e interpretam o Código original de acordo com sua época e cultura. Monges budistas em geral não vivem como ascetas jainistas que sequer podem andar de carro porque devem a todo custo evitar matar “seres vivos”, e para estes até mesmo uma charrete se torna uma máquina mortífera que esmaga infinitos seres com um único giro de suas rodas.
Talvez esta idealizada e romântica simplicidade bucólica e despojada de monges, com suas roupas de trapos remendados, sua renúncia ao mundo, sua pureza (de toda ordem), seus cabelos raspados, perambulantes e mendicantes, vivendo uma vida de pobreza e liberdade em relação às constrições do mundo (em sua tarefa eterna de buscadores da Verdade) pouco se assemelhe aos modos de vida e complexidade de regras dos monges de hoje em dia vivendo em Mosteiros e atuando em Templos (no caso em questão, Japoneses), embora ainda exerça uma força de atração arquetípica sobre nossa contemporaneidade ocidental anacrônica, horizontalizada, culturalmente múltipla e desenraizada do século 26 da Era Buda. Mas, e se alguém como uma Mestra Zen subitamente garantisse, atualizasse e mostrasse que sim, tudo isto é realizável, aqui e agora, mesmo que as condições aparentes de nossa existências se apresentem de modo diverso?
Neste processo de adaptação ao “ocidente” (horizontalizado e menos verticalizado), devemos nos indagar o que deveríamos levar, trazer e deixar deste e outros textos e práticas aprendidas em mosteiros no Japão, de Mestre Dogen, no momento em que nossa Reconhecida Professora (reconhecida tanto pela Instituição Japonesa que preserva e transmite esta tradição quanto pelas pessoas comuns que reconhecem e falam de sua visão desperta, que difunde o Darma por esta Terra Brasileira, ou onde quer que se encontre) começa a estabelecer uma ordem brasileira inspirada e vivida (e também obedecendo e vinculada institucionalmente e diretamente transmitida a partir desta tradição Japonesa) na Tradição Sino-Japonesa do Budismo Zen Soto? Qual é a inspiração, o sentido e a fonte destes nossos encontros de monásticos? E como, com nossos corpos e mentes, acrescentamos uma flor, uma semente ou um galho a esta árvore de infinitas folhas do Darma Budista? Como se deve entender estas regras?
Sob um outro aspecto, estas regras do Japão medievo que estabelecem um modo de vida e de comportar-se de alguém que escolhe o caminho Budista servem como uma referência que pode nos orientar. Daí o valor de textos antigos como este capítulo chamado “Taiko”. Mas além deste valor externo de orientação, deveríamos pensar em entender estas regras até os ossos, medulas e vazio. Afinal, esta é nossa escolha como monges ou como leigos. Praticaremos estas regras literalmente como monges Theravada praticam alguns preceitos do código Vinaya? Há uma função interessante nesta escolha: “na dúvida, não ultrapasse”. Prudência é algo recomendável. Mas ao mesmo tempo sabemos que navios ancorados em seus portos não atravessam mares e são totalmente inúteis como veículos, assim como barcos que ficam presos em uma margem não chegam à outra margem. E definitivamente não pretendemos apenas conduzir um barco, mas todos os seres. Sem pressa, mas imediatamente.
Devemos portanto nos questionar profundamente para entendermos o que é essencial deste texto medieval de mestre Dogen que, na época em que viveu, tentava estabelecer uma Ordem Budista (1) de acordo com a compreensão de seu despertar, compreensão que trouxera da China, e sob este ponto de vista seguidores da Escola Soto devem tomar o legado de Dogen como textos de fé, pois se trata de abrir o coração para compreender o fundador desta escola e confiar em sua visão iluminada, até que não haja mais Taiko quando um Taiko encontra outro Taiko face a face, tal como diz o texto. E devemos portanto começar acreditando que há algo como um tesouro precioso em suas palavras, e deveríamos nos entusiasmar mesmo diante de textos de regras aparentemente circunstanciais e culturais como este. Pois no outro lado da equação deste texto estamos nós, leitores e ouvintes que como no verso de abertura dos Teishôs (Palestras Sagradas do Darma), deveríamos confiar/confiamos que sejamos capazes de ouvi-lo e compreendê-lo corretamente. Ou seja, que nos tornemos íntimos dele, igualando-nos em nossa mente e capacidade de compreensão, ao interpretarmos e assimilarmos este ensinamento. E é deste lugar de igualdade de que a penúltima regra descrita fala:

“Não há Taiko quando um Taiko encontra outro Taiko face a face (não há necessidade de que sigam estas instruções).”

Ou seja, diante da verdadeira compreensão do Darma, todas as regras que são descritas anteriormente no texto de Dogen caem por terra, não porque deixam de ser cumpridas e nem sequer porque são cumpridas, mas porque não será mais necessário enumerá-las e descrevê-las. Pois a verdade flui aí com a compreensão. Mas para noviços estas regras se aplicam para garantir a preservação do próprio Darma, para que ele não se perca.
A regra seguinte nos lembra que há sempre infinitos seres a serem “respeitados” como Taikos, pois o encontro com Taikos jamais cessa. Assim, ao mesmo tempo em que estas regras NÃO precisam ser ‘seguidas’, elas precisam SEMPRE ser seguidas. Convoca-se aí a mente alerta e de atenção e o discernimento inicial para sabermos distinguir.
Por outro lado, do ponto de vista de uma realidade relativa de acordo com a época e lugar em que viveu, Dogen Zenji Sama é conhecido por seu rigor e viveu em uma época de samurais, em uma sociedade rigidamente hierarquizada e verticalizada. Estabelece regras seguindo esta ordem de seu tempo e lugar e deveríamos sem muita cerimônia cortar seu texto ao meio e ir direto ao que interessa deste texto ao nosso mundo hoje. Em que precisamos nos transformar para encontrar a essência destes ensinamentos e vivermos de acordo com este Darma? E também devemos refletir: o que devemos mudar nestas regras que correm o risco de se tornarem uma série de comportamentos formais, vazios e sem sentido fora de um contexto cultural especifico e agem como demônios que afastam o Darma verdadeiro e afastam praticantes sinceros que buscam o Darma? E uma pergunta deriva destas duas: o que PODEMOS mudar sem que se perca o essencial? E o que inevitavelmente muda, sem tirarmos nem acrescentarmos nada?
Podemos olhar para este texto com generosidade da fé que porventura cultivemos em Dogen Zenji Sama. E então, já obedecendo seu texto, e com profundo respeito e reverência a este que é não apenas um Taiko, mas um Fundador, podemos tentar humildemente compreendê-lo. E a admoestação, um tanto quanto ameaçadora, que ele faz ao intérprete, à audiência que escuta suas palavras, é muito séria:

“As maneiras de iniciantes mencionadas acima são exatamente o corpo e a mente dos Budas e Ancestrais. Não falhem ao estudá-las. Se falharem, o Caminho dos Budas e Ancestrais se arruinará e igualmente o supremo budismo desaparecerá.”

Pois se aspiramos à “extinção” do sofrimento, se aspiramos ao absoluto e ao atemporal, será preciso estudarmos e compreendermos estes ensinamentos. Ou o ensinamento se perde.
Devemos entendê-los como macacas imitando santas ou como santas e sábias iluminadas que passam pelo mundo como macacas?
Retomando os último e penúltimo itens do Darma do encontro com os antigos: eles relativizam todas as relações como duas flechas se encontrando em pleno ar, ou como infinitas flechas se encontrando, todo o tempo. É o momento de epifania do texto de Dogen:

“Não há fim ao encontro de Taikos. Encontrá-los é inexaurível, tanto no primeiro período de treinamento quanto na definitiva realização Buda.”

Ou seja, quando pessoas comuns se tornam noviços, ou peixes se tornam dragões, ou dragões-noviços se tornam Budas, devem ser incessantes, sem fim e infinitas as práticas do respeito, humildade, gratidão e o comportamento correto.

Parte 2 - RESPEITO
Tomemos como palavra essencial que pode ser derivada como preceito geral para o tratamento com os antigos a palavra “RESPEITO”. Retorna-se ao conceito básico que alimenta esta reflexão: o que é RESPEITO? Quem é digno de respeito? A quem fazemos nossas reverências Diárias? A que amo servimos? Podemos servir dois amos? Servindo a um Mestre, servimos a um Taiko, e servindo a um Taiko servimos todos os seres? Ou fazemos reverências apenas a alguns?
O que está abaixo e acima é relativo ao tempo e lugar ou é absoluto e atemporal? Aquele que está acima respeita o que está abaixo como respeita um “igual” ou um que está acima dele?
E quando reverenciamos tudo e todos, de forma horizontalizada, será que não estamos reverenciando também demônios e espíritos famintos? E perdemos a oportunidade de, ao igualar, não percebermos uma ordem na diversidade? Ou reverenciamos, com respeito, a possibilidade de findar seu sofrimento (neles, fora, e em nós mesmos, dentro)?
Nossa sensibilidade e discernimento embotados muitas vezes não nos permite perceber o que é adequado. Santo Agostinho chamaria isto de Razão limitada: “A fé precede a razão”. Por isso precisamos praticar muitas vezes “na confiança” ou na “fé” de que aquilo que praticamos é bom. Quantas vezes perdemos os portais porque não confiamos, não temos sequer auto-confiança ou auto-estima, então o que se dirá de confiar em nossos amigos e professores? O caminho Budista mostra por vezes o quanto a crítica pode ser completamente infértil, seca e dura. Quantas vezes destruímos as coisas antes delas sequer chegarem a tomar forma, existirem, e por pura desconfiança perdemos possibilidades de boa visão, de um bom caminho e de construirmos algo bom e contente? Que medo há em reconhecer a bondade, a felicidade nos que nos rodeiam?
Por isso, mas dependendo do tipo de mente e intenção com que praticamos, a regra pode se tornar algo difícil ou fácil (“o Grande caminho não é difícil para quem não tem preferências” – do texto A Mente de Fé). Por exemplo, na presença de uma mestra, nossa consciência subitamente desperta e fica alerta e então percebemos com clareza a subitamente sabemos quais são as ações, comportamentos e maneiras de um monge diante de um Mais Antigo. E o respeito naturalmente se faz. Mas apenas para aqueles que reconhecem onde estão.
Mas se a mente diária está embotada, desatenta e tampouco acredita naquilo que faz, a prática realmente se perde? Chamamos isso de colocar uma mente de energia, entusiasmo e boa vontade em nossos pensamentos palavras e ações, a partir desta confiança básica. Mas se esta confiança falta, pelo menos podemos ser macacos imitando pessoas ou sábios.
Por exemplo, se sua professora pede um copo d´água e vocês está muito raivosa, e ela percebendo isto lhe diz: pode trazer com alegria? Claro, você foi pega de surpresa e então você traz o copo d´água com alegria, porque acha que algo de repente se revelou ou foi ensinado ali. Mas se você está embotada ou muito envolvida em seus próprios problemas e não há uma mestra para mostrar o que você está fazendo com sua vida, ou alimentando venenos, como praticar? Seguir certas regras de conduta pode ser um bom modo. Ou refletir profundamente uma questão que se manifesta até que a bolha se desfaça (como um Koan). Ou talvez você esteja em lugares onde também não há mestres, sangas ou darmas, ou não os mestres que você gostaria de encontrar. Ou apenas você não consegue vê-los, de tão cega, embotada pelos venenos e raízes que cultivou. Nestes lugares ou momentos, agarrar-se ao Darma de uma, duas ou milhões regras, isto é, se ainda restar algo dele, pode ser uma grande prática. Pois confusa, cega, desolada e infeliz também pode-se praticar.
Por outro lado, como evitar Taikos-Demônios externos ou internos que, a exemplo da Mãe e Pai Demônios do texto Hotsu Bodai Shin (o qual será comentado a seguir), apenas nos afastam do caminho, pois estabelecem regras que, por sua vez, não estudadas profundamente, destroem o bom discípulo e arruinam o Caminho dos Ancestrais, seja pela exigência de regras que torna o praticante (monge ou não) pessoa vazia e apenas funcional, ou regras culturais e vazias que afastam pessoas de uma comunidade (porque para elas não faz sentido). Ou então, no extremo oposto disso, o abandono de qualquer regra por confiança excessiva no caminho do “coração”, guiados por uma “consciência” ou “mente” demônio egoísta e completamente deludida, mas que acredita piamente que está seguindo o Darma de Buda.
Conheci algumas pessoas que, sem se aproximarem suficientemente do Darma budista, julgam ter compreendido tudo. E ficam no nível da mente Intelectual, Citta. Muito cuidado, muita atenção e muita mente alerta neste momento:
“Papiyas e seus seguidores ás vezes se disfarçam de Budas, genitores, mestres budistas, parentes ou seres celestiais a fim de obstruir a prática” ( Do texto Hotsu Bodai Shin)
Como reconhecer um Buda ou o Caminho Correto? Não sei, mas duas histórias me ocorrem:
1)Um grande rei e príncipe africano é aprisionado e acorrentado e atravessa mares em um navio negreiro, e chega ao Brasil, onde é vendido como escravo. Se sua natureza nobre é apenas um posto, uma função vazia, ela não se manifestará onde quer que esteja, ou seja, quando a pessoa é retirada de seu sistema. Por outro lado, se for algo que seja parte da essência do vazio daquela pessoa (perdão pelo modo como me expresso, mas isso parece uma bobagem de se dizer, “essência do vazio”), esta pessoa se mostrará digna do respeito pelo modo como anda, pensa, come e fala. Mas se mesmo assim, o universo inteiro à sua volta o tomar apenas como escravo, ninguém saberá da natureza nobre daquele Senhor da Casa.
Assim o Imperador Wu encontra e desencontra o indiano, nosso ancestral Bodidarma? Não sei. Pérolas ou seixos. “Cada um tem seu valor intrínseco e está relacionado a tudo mais em função e posição”.
2)Uma pessoa amiga me disse: “meu ex-namorado praticou tai-chi por 15 anos. Até que chegou à conclusão que seu corpo não era adequado para aquelas formas importadas de outra cultura. E nunca mais voltou à prática”. Uma outra amiga que morou na Alemanha disse que lá foi convidada para visitar um centro de prática zen-budista. Ela chegou lá e viu tantas e tantas regras e procedimentos que nunca mais voltou. Esta pessoa será um demônio ou uma amiga do Darma?

Está tudo certo, mas não haveria algo de lamentável em alguém que abandonasse o “Darma Budista” porque seu corpo-mente jamais será japonês ou chinês? Existe a possibilidade de uma prática que não seja puramente verticalizada e hierarquizada e tampouco com excessivas tendências culturais? E caso seja verticalizada, que hierarquias serão seguidas, qual o modelo? Como brasileiros podem ir além de serem brasileiros e despertar para o Verdadeiro Darma de Buda sem incorrermos em meras formalidades e rituais vazios que preenchem nosso tempo mas que apenas nos afastam do verdadeiro caminho? Alguns em nossa comunidade dizem que é muito cedo para transformar e mudar qualquer coisa e que devemos importar e trazer do Japão o verdadeiro Darma Budista na forma e essência como o conhecemos. Isto me lembra do Darma ensinado como as infinitas folhas de árvores e do pequeno punhado delas que podemos segurar em nossas mãos. Nem por isso menos precioso. Apenas o que é possível e aquilo que somos capazes de fazer neste momento.
Por outro lado, também me lembra a história do elefante (os cegos que o apalpam e cada um descobre o elefante pela parte que toca), em que importamos uma CERTA prática, uma CERTA ideia de Darma na sua forma de mosteiro, com o que limitamos a possibilidade de “inventar” ou “criar” o Darma verdadeiro a partir de uma realidade local – o que poderia estender e ampliar para mais pessoas a oportunidade de praticar o próprio Darma, especialmente quando se trata da cultura japonesa, tão diametralmente diversa da cultura brasileira.
Mesmo assim, ainda está tudo bem porque ensinamos o ilimitado a partir de nossas profundas limitações e idéias limitadas, a partir do que treinamos e nos habituamos: somos bodisatvas. Com frequência o que vemos é que muitos, atraídos pela fama que a meditação adquiriu em nosso mundo, abandonam a prática pois para eles é estranho chegar em um lugar onde as pessoas brasileiras agem como japonesas e onde é exigido que os corpos e palavras se adequem a esta outra cultura. Nada vem “puro”. Para outros, pelo contrário, há uma atração muito grande em “se tornar outro”, em “imitar outra cultura”. Que tipo de pessoas e Darma surgem deste encontro? Como lidar com este desconforto do deslocamento de uma cultura para outra com o compromisso de transmitir a Verdade que surge deste próprio encontro? E como INCORPORAR esta transformação, e não se preocupar tanto com identidades desta ou daquela cultura?
Podemos respeitar este encontro.

Parte 3 (pessoal): Os corpos, a cultura:
Sem engolir e sem cuspir. Esta bela flor, como colhê-la, como não colhê-la?
Somos flores mistas. Por mais que eu queira (e não quero), eu jamais terei aquele corpo oriental que me faz dobrar o corpo como um japonês. Serei sempre uma imitação. E tigres não conseguem se vestir de carneiros. A não ser que se tornem um, verdadeiramente. Budas se tornam/encontram budas, não brasileiros ou japoneses, mas Budas. Mas certamente que a convivência com a cultura Japonesa transforma nossos corpos de forma radical – e o fato de estarmos “buscando” o Darma de Buda no Japão – e este Darma acontecer através de um treinamento de ações, palavras e pensamentos, uma cultura muitas vezes apontada como diametralmente oposta à brasileira, mas também como um “modelo” de respeito à educação e aos professores - nos transforma completamente, transforma inevitavelmente nossos corpos e mentes de forma radical. Mas isto não necessariamente faz realizar o verdadeiro Darma de Buda. Por exemplo, a proximidade entre corpos e o quanto podemos/não podemos nos tocar: Quando retornei do treinamento no Japão eu tinha AVERSÃO a qualquer proximidade física. Mas isto é cultural, japoneses não se tocam para se cumprimentar.
Imaginemos também que alguém proponha que não se diga mais – san, sensei, roshi (e não usar estes títulos não é mais uma ofensa, mas apenas uma experiência que nos permita usar ouvidos brasileiros). A não ser que queiramos fazer de nossa prática uma instituição burocrática e cheia de regras e hierarquias como um tribunal de justiça, um palácio do Itamaraty ou um Congresso Nacional. Qual seria nossa etiqueta sem este corpo japonês? Que nomes usamos para demonstrar respeito? Vamos construir uma Instituição Budista, vamos Instituir uma Ordem Brasileira?
Acredito que dispensamos tempo em excesso em aprender etiquetas e formas que nada têm a ver com a essência dos ensinamentos. E trata-se aqui não de encontrar qualquer verdade ou sentido real para o que estamos fazendo com nossas vidas, ou se estamos verdadeiramente investigando e estudando nossa natureza profunda e verdadeira. Mas realmente precisamos de muitas formas para viver neste mundo. E se não chegamos à essência dos ensinamentos, por que suponho que sabemos o que importante e o que não é?
Mas engolimos goela abaixo muita coisa por amor ao Darma. E com isto podemos nos machucar e machucar muita gente à nossa volta. Por outro lado, sabemos que a essência do ensinamento é a própria “prática”, e ela acontece via um treinamento de corpos e mentes. Mas de certo modo, descontextualizado, este treinamento faz pouco sentido. Vamos reproduzir um templo japonês no Brasil?
Perdoem pelo que vou dizer, mas comportar-se de acordo com as regras estabelecidas no texto do Darma de Encontrar os mais antigos: não cruzar as pernas, não se coçar, não isto não aquilo pode ser parte de uma disciplina de docilização de corpos que servirão apenas para a obediência. E pode nos tornar pessoas muito diferentes dos brasileiros que somos e nos aproxima menos do Darma Budista que de um corpo formatado para viver na sociedade japonesa. Seria importante saber como Mestre Dogen chegou àquelas regras, vindas de uma Cultura irmã (a Chinesa) e chegando a um Japão que já havia impostado alguns séculos de Budismo Chinês. Para fabricar mestres vamos sacrificar pessoas?
As ações de um monge devem imitar as ações de um Buda? Ou devem sair da profundidade de sua manifestação como budas, monges ou cães? Mas somos também um macaco que imita, e isto talvez seja bastante e não tão pouco como meu orgulho de mente Citta (intelectual) ocidental pretende.
O último preceito estabelecido no texto é aquele que relativiza e ao mesmo tempo universaliza as regras expostas, ou seja: mesmo para Taikos estas regras se aplicam incessantemente. Podemos presumir que o respeito de que se fala deva ser aplicado a praticado por todos, sem exceção. Ou seja, a regra primordial continua sendo respeito por todos e tudo, pois não se sabe as idades de cada um. Esta última regra me lembra uma história que Monja Coen costumava contar sobre um monastério em guerra e conflito internos. O Mestre disse que dentre os monges havia um desperto, iluminado. E então todos começaram a se tratar com respeito, supondo que qualquer um ali vivendo fosse alguém digno de ser reverenciado. Pois não é exatamente isto de que se trata? Respeitar e honrar e reverenciar tudo que é desperto, e reconhecer tudo em seu despertar?
Por outro lado, a partir do desenvolvimento de uma certa “sensibilidade”, em um ambiente como a Internet ou mesmo em uma prática no meu espaço, já senti um certo mal-estar por me sentir “desrespeitada” em minha condição de monja pelo simples fato das pessoas comuns que vêm praticar não saberem minimamente algumas regras. Isto significa que já incorporei algumas regras de hierarquia. Também me assusto ao ler alguns comentários dirigidos a pessoas que ocupam função se destaque, como minha professora: e a legenda que ponho nesta “sensação” é: ‘está sendo desrespeitada’. Mas isto é “sensibilidade budista ou japonesa’? Ao mesmo tempo, não consigo respeitar todos os que “ganham títulos” dentro da nossa comunidade.
Pessoalmente (e aqui é bem pessoal mesmo), acho estranhas estas mudanças súbitas de títulos, pois inicialmente Monja Coen era só Coen para mim, como alguns monges da minha cidade costumavam chamá-la. Comecei a chamá-la de Sensei. Agora há uma pressão para chamá-la de Roshi. Depois vi que alguns a chamavam de San em um outro templo no Bairro Liberdade, de forma derrogatória, para mostrar sua desimportância. E isto de algum modo me ofendia. E hoje, quando vejo alguém a chamando pelo nome de Bodisatva, sem título algum, me soa profundamente estranho e desrespeitoso. Mas foi uma aprendizagem que ecoa em uma lembrança dos meus primeiros anos como sua aluna.
Mas quanto a outras alunas e alunos, sinto muito, mas não há o mesmo respeito. Pois é estranho uma titularidade não construída junto a uma comunidade, mas apenas a partir de uma experiência em um mosteiro. Por exemplo, os que chegam à comunidade quando Zentchu Sensei já se estabeleceu como tal, provavelmente acharão mais fácil chamá-la assim. Mas quando olho para ela, eu não a reconheço mais e não me sinto à vontade para chamá-la de Sensei, pois para mim Coen (agora Roshi) é ainda Sensei.
Será que isto tudo é mesmo importante? de repente eu me vejo ensinando o Darma de aplainar a Manteiga ou de tampar panelas para não dispersar o calor e energia da água que deve ferver. Pois isto eu aprendi com Monja Coen, assim como aprendi com meu ex-professor a estralar os dedos, mas isto não me salvou de um Karma negativo no encontro com este ex-professor, ou infinitos Karmas negativos. O que salva é estar presente. E estes ensinamentos são como o dedo que aponta para a lua. Se alguém além de Gutei corta o dedo, mera imitação sem prudência, sem manifestação presente, isto será apenas um dedo cortado. Sem lua alguma.

Texto 2 - Hotsu Bodai Shin: Despertar para a mente Bodai

A) Resumo (Estrutura do Texto):
O texto pode ser dividido em 5 partes:
1) Despertar para a Mente Bodai: Definição de Mente Bodai - a partir de Tipos de Mente (3): Citta, Hridaya, Vriddha.
2) Ksana ou Instante vida-morte (incomensuráveis, pois podem ser máximos ou mínimos, aqui Mestre Dogen instaura o “tempo mental” e tenta nos conduzir à relativização de nossas noções conceitos e percepções comuns e aparentemente objetivas sobre grande, pequeno, sobre instante e eternidade, mínimo e máximo). O instante também serve para demonstrar que a prática não é pequena nem grande e que o momento inicial do despertar para Bodai não é diferente da Sabedoria Completa. Ecoando genjokoan: “Cada tempo é completo em si mesmo (como lenha e cinza, um não se torna outro)”.
3) Preservar e sustentar o despertar de Bodai: Por quê e como?
a) Importância: Bodai é Portal do Darma iluminado, pois evita a negação dos 3 tesouros. Para alcançar supremo Nirvana e viver em Constância, Felicidade, Autonomia e Pureza.
b) Como: Realizar vida-morte do instante e fazer voto de salvar todos os seres – isto sustenta mente Bodai.
4) Há Demônios que destroem a mente Bodai. A fazem regredir ou a afastam. São divididos em 4, embora fundamentalmente sejam a mesma coisa (veja abaixo)
5) Conclusão: Praticar diligentemente os ensinamentos para que demônios não permitam regredir ou afastar a Mente Bodai.

B) Comentários e Resumo sobre a Mente que Desperta para o Grande Despertar

Entre despertar para Mente Bodai e alcançar Suprema mente de Sabedoria Bodai há um percurso, mas não necessariamente um percurso TEMPORAL logicamente encadeado. Quem o percorre é um Bodisatva. Aqui vamos além de Citta (mente lógica, da razão), que nos faria pensar que precisamos atingir então a Completa Iluminação antes de tudo: pois um Bodisatva foca não no seu despertar individual para a Suprema Iluminação, mas é aquele/a que compreende que a Grande Prática é independente deste objetivo final – o que não significa abandoná-lo, mas apenas adiá-lo em benefício dos inúmeros seres que ele se compromete a ajudar. Imaginemos que um Bodisatva não corre (pois já percebeu Ksana, o instante e sua eternidade, contendo todos os fenômenos) mas age atentamente e imediatamente na urgência do tempo que passa e desperta sobretudo para a necessidade de estender méritos para salvar todos os seres (ações não egoístas). Além disto, age com atenção para preservar e não perder aquilo que já despertou (algo precioso que deve amadurecer e por isso é protegido). Reconhecendo a importância deste despertar, assim evita ceder aos 4 demônios: dos obstáculos, dos desejos (ou Celestiais), dos 5 Skandhas (5 agregados que formam o eu), da Morte.
Dogen enfatiza de forma reiterada neste texto que alcançar suprema iluminação não é para si mesmo, mas que devemos aspirar a isto universalmente para todos os seres e ajudá-los ANTES de nós mesmos. Esta parece ser a prática essencial de proteger a mente Bodai. Só assim este despertar se realiza.
Devemos ser incansáveis e estamos sujeitos ao risco de encontrar demônios que fazem com que percamos nossa mente Bodai - enumera-se 4 tipos de demônios (o que impede ou afasta Bodai): demônios dos obstáculos, dos skandhas-agregados, da morte e os demônios celestiais dos desejos. Há que se fazer portanto um ESFORÇO constante e manter a ATENÇÃO para proteger esta mente Bodai (ou Darma).
Pensemos temporalmente em 2 ‘momentos’: despertar inicial e suprema iluminação (esta, como o grande fogo, aquela como luzinha) – mas se igualam se seguimos o voto de manter o esforço para salvar todos os seres. A percepção da realidade da transiência de todas as coisas – o selo da impermanência é então apresentada como fator do despertar. Impermanência aqui é entendida como percepção da eternidade de um Ksana, um instante com/como as miríades de coisas.
Parte do texto é dedicada a explicar a experiência da impermanência e da realização de um instante. Como aquilo que, junto com o voto de salvar todos os seres, preserva a mente Bodai.
Vamos aos tipos de mente explicitadas: primeiro descreve 3 tipos de mente: citta (discriminatória, pensante-razão), hridaya (grama e árvores - instintiva ou força vital) e vriddha (experiente, concentrada- crescer, amadurecer, mente de sabedoria prajna). Além destas 3 mentes, há a mente Bodhi (o caminho, estado de iluminação, verdade), que surge de Citta. A mente Bodai surge de mente citta – estabelecê-la é assumir o lugar do Bodisatva: manter voto e esforço.
Mente Bodai é definida inicialmente por negações (esta mente não é isso nem aquilo), um método que parece ter por finalidade evitar fixações em conceitos errôneos, ou evitar que aquele que ouve estabeleça muito prontamente um saber meramente intelectual (aprisionado em Citta, mente racional) sobre algo que necessita ser incessantemente e infinitamente praticado com fé, ou melhor, com corpo-mente. Alguns exemplos de negações: Esta mente não é nem inata nem surge. Nem uma nem muitas. Não está no corpo e corpo não está nela. Nem objetiva nem subjetiva. Nem combinada nem sem causa, ser, não ser; etc.
Esta sintaxe da negação é bem conhecida no Sutra do Coração da Grande Sabedoria, e em vários outros da tradição Budista, como por exemplo o texto que recitamos na cerimônia de Dai Hannya, ou partes do texto “O Despertar da Fé”, atribuído a Asvaghosa. Uma outra função deste tipo de texto é “quebrar a cabeça”. É para desistir, completamente, mas só depois de atravessá-los. Neste aspecto, podem ser comparados e assemelhados à técnica do uso de Koans.
Há também uma definição positiva da mente Bodai que permitem aterrissar em um campo de encontro: “Só aparece quando há comunhão espiritual entre pessoas e Buda”. “Surge quando afastamos os mundos do sofrimento”.
Comentário final:
Há dificuldades em ler Mestre Dogen: primeiramente, o texto é de outra cultura, foi escrito em japonês e para japoneses do século 13. Além disso, sua lógica é única e ele está ensinando e não palestrando sobre algo. Cito de memória o que disse um Monge de nossa comunidade brasileira que estudava Dogen: embora pareça ser um filósofo, ele não deve ser lido como tal, pois o que ensina é prática. E a partir disto podemos imaginar este Mestre que começa a ler muito cedo, que lê tudo sobre budismo também muito cedo, e que traz então em suas veias, artérias e medula o mundo dos textos de uma tradição que foi lida e relida por ele. Qual é o MUNDO de Mestre Dogen? Podemos levantar a hipótese de que se trata de um mundo de Letras e Palavras que ele abandona para buscar o verdadeiro Darma na China? Quando ele cita textos, ele comenta, ele está ao mesmo tempo EXPONDO o Darma para seus discípulos, vivendo o Darma em Palavras E DIALOGANDO com toda a tradição de textos, mestres e ensinamentos que vieram antes dele. Seu pensamento vem cheio de palavras, frases, ideias e textos desta tradição. Muitas vezes não sabemos a que textos ele se refere, pois embora seja um mestre de prática, também é um erudito.
(Monja Martha Waryu , Belo Horizonte-São João del Rei, julho-outubro 2016)