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Depoimento Jishú

Porque o Budismo - considerações de uma mãe

Meu nome é Jishú, Janice Maria Ortiz, fiz meus votos leigos (preceito) em 26/02/2578 (2012).

Gostaria de compartilhar minha história e porque me tornei budista.

Em 10 de fevereiro de 2010, meu filho Ricardo partiu. Foi a maior tragédia que aconteceu em minha vida.

Havia perdido meu pai com 13 anos e muito cedo tive que amadurecer. Minha vida junto com minha mãe e meu irmão mais velho de repente mudou. Meu pai, o grande provedor, partiu. Mudamos de padrão de vida, de casa, de referências, de valores. Foi uma grande transformação para todos nós.

Minha mãe, na época, de tão deprimida, chegou a perder 20 quilos em um mês, ela não tinha forças para continuar sem ele. Senti que tinha que ter forças por mim, eu tinha anseio de vida, e por ela. Meu irmão estudava fora e não estava presente no nosso dia a dia sofrido.

Foi com esse sofrimento que senti que tinha garra, vontade de viver, de ajudar minha mãe a enfrentar as dificuldades e a determinação de ir atrás de meus sonhos.

Descobri minha profissão, sou fisioterapeuta e trabalho com crianças. Amo o que faço. Sinto-me realizada.

Tive dois filhos, Gustavo e Ricardo. Nossa relação sempre foi de muito amor, o melhor acontecimento de minha vida. Procurei educá-los com responsabilidade, com respeito a si mesmo e aos outros, procurando sempre realizar seus sonhos e ser FELIZ. Que sempre dessem o melhor de si, em tudo. Que sempre havia uma solução para tudo, menos para a morte...

E assim ela chegou. A primeira pergunta que nos fazemos.... Por que ????? Por que comigo ????? Por que com ele ??????

Não, não, não...A negação é o primeiro sentimento que somos tomados com essa tragédia.

É impossível na hora que acontece, realizar o que é a perda de um filho. É a contramão da vida, enterrar um filho ??? Não !!!!!! Enterramos os avós, os pais, mas filho ???

Na hora do choque, junto com a negação vem a revolta, a perda da crença em tudo, principalmente em Deus. Por que ????? O que eu fiz ???? O que meu filho fez ??? Ele merecia viver !!!!!

Rezei tanto pela cura.... não fui ouvida... Rezei tanto pedindo a troca, me leva, deixa ele, é jovem, quer viver... não fui ouvida... Tem tanta gente que pede e é ouvida, por que não eu ?

Revolta, negação, loucura...

Nestes dias, voltei a me aproximar da Sensei Coen. Já a conhecia e sentia luz em sua fala e paz com sua presença.

Fui muito acolhida, como sou até hoje, pela sua compaixão. Conversamos, rezamos, fizemos a cerimônia dos 49 dias.

Comecei a frequentar o Zendo e aprendi a fazer Zazen. Passei a fazer diariamente pela manhã, com meu grande companheiro, o Edu, que sempre está ao meu lado. Sentia que era a única coisa que me dava paz para tocar o dia. Rezava o Sutra da Grande Sabedoria da Flor de Lótus e apesar de não entender tudo o que ele dizia, sentia que me fazia bem.

Ouvi um dia a Sensei contar a história dos quatro cavalos e me identifiquei. Eu era aquele cavalo que sentia a carne cortar, chegar até o osso, entendi que esse foi o meu chamado.

Resolvi conhecer mais o que era o budismo, uma filosofia? Uma religião? Havia perdido a fé em todos e em tudo. Queria entender a morte, queria entender o porquê das coisas. O que era a vida, o que era a morte.

Fiz o curso de introdução ao budismo. Quanto mais conhecia, mais dúvidas, porém mais me sentia bem. Percebi que eu estava mais em paz, mais centrada. Aí veio o primeiro insight: se eu estiver em paz, meu filho, aonde estiver, também estará em paz.

Percebi que as pessoas em minha volta, também estavam mais em paz.

Comecei a me identificar com os ensinamentos, cada vez mais. A prática me fazia bem. Minha percepção estava alterada. Minha visão do mundo, dos seres, da inter-relação entre tudo e todas estava modificada. Meu coração tinha mais compaixão e aos poucos a revolta estava se dissipando. Aí a segundo insight: Por que conosco ??? Por que não conosco ??? Causas e condições! Com os ensinamentos de Xaquiamuni Buda passamos a ver com os olhos da compaixão o sofrimento de todos inclusive até o nosso sofrimento.

A vontade é interromper nossa vida quando algo assim acontece, mas há algo mais forte do que a vontade de partir. Não sei definir, o amor pelos que nos rodeiam, que necessitam de nós, o amor à vida, o medo da morte...novo insight: a morte faz parte da vida, não tem porque temê-la, viva bem, morra bem. Um dia ouvi que Buda, próximo de seu Paranirvana, disse que sua mãe estava vindo buscá-lo, tenho certeza que meu filho também estará presente!!!!

Após o curso de Introdução, resolvi estudar os votos, os preceitos. Não era mais para entender, porque como disse, quanto mais se estuda, mais dúvidas. Passei a me permitir, sentir, apenas sentir. Os questionamentos fazem parte da dualidade. É assim ou assado? Bem ou mal? Bom ou Ruim? Quando vinham as questões, fazia Zazen, inspira, expira, inspira, expira... e de repente estado de paz.

Outra descoberta: a importância da Sanga. Vivemos em Sanga, não vivemos em reclusão. Com a partida do Ricardo, a vontade é de reclusão total. Com os ensinamentos, vemos que a vida é para ser vivida em comunidade, que somos todos um e que o um é o todo. O Dharma, os ensinamentos, é o que rege a nossa vida na Sanga.

A partir desses ensinamentos, das percepções, percebi que a vida, agora, só tem sentido com o comprometimento dos meus votos, "Fazer o Bem, Não Fazer o Mal, Fazer o Bem a todos os Seres" .

Gassho.