Monja Coen Roshi

Daigyo Moriyama Roshi, o Mestre do enigma

shogyo e_moriyamaAmbos partilhávamos no nome de ordenação um ideograma comum, Gyo, (prática). Ele se chamava Daigyo, e eu Shogyo. É justo no entendimento desse termo que o Zen Budismo e o Shin Budismo têm concepções aparentemente opostas. Para o Zen, a prática é tarefa humana, algo que se realiza por iniciativa nossa. Para o Shin, a prática nos transcende, é algo que o Buda Amida realiza em nós. Moriyama Roshi e eu quase só conversávamos sobre o Dharma e jamais discordamos. Falávamos sem precisar pensar o que dizíamos, e o rio de todos os assuntos acabava por desaguar naturalmente no mar.

Nosso primeiro encontro foi por casualidade na casa onde primeiro funcionou o Templo Zulai. A empatia foi imediata e logo em seguida Moriyama Roshi pediu-me para visitar a Terra da Paz, no Mato-Grosso. Nas vésperas do embarque eu telefonei a uma discípula dele para saber sobre restrições alimentares, pois alguém me dissera que Moriyama Roshi era vegetariano. A discípula o confirmou mas disse que eu não me preocupasse pois ele comia carne. Antes que eu concluísse se tratar de um koan, ela me explicou que Moriyama era vegetariano mas comia tudo o que lhe oferecessem, e não gostava que as pessoas tivessem de preparar algo a parte especialmente para ele. Eu começava a conhecer o Mestre Zen de quem desde o primeiro momento já me sentia amigo.

Durante nossa viagem a Terra da Paz, um dia saímos pela manhã em companhia de um amigo e colaborador, Mário Friedlander, que se ofereceu para nos levar a um local de rara beleza na Chapada dos Guimarães. Deixamos a pick-up onde a estrada de terra findava e caminhamos numa trilha estreita em meio a espesso cerrado quando de repente nos vimos na beira de um canyon de 100 metros de altura. Diante de nós havia uma pedra que se erguia paralela ao paredão, e a qual se chegava dando um passo largo sobre o abismo. Mario passou primeiro, e eu em seguida. Não vi o abismo quando o atravessei, pois toda a minha atenção estava concentrada na superfície de pedra onde eu precisava me apoiar. Quando firmei os dois pés, fui impactado pela beleza avassaladora do horizonte com cerrado virgem que se estendia até onde a vista alcançava. Araras voavam abaixo de nós rompendo o silêncio com seu canto. Virei-me para chamar Moriyama Roshi e deparei com ele paralisado ante o abismo, num transe de horror. Era acrofobia! Sem pensar atravessei de volta, segurei-lhe as mãos e disse: "Vamos juntos! Não olhe para baixo quando cruzarmos. É só um passo!" Apesar do evidente terror, Moriyama não hesitou em me acompanhar. Quando estávamos já sobre a pedra, ele pediu para sentar pois estava tonto. Ficamos sentados durante algum tempo. Ele vez ou outra fechava os olhos, e quando os abria estavam esgazeados tal como no primeiro instante. Por fim cruzamos juntos de volta. A inteireza de Moriyama Roshi naquela aparente fragilidade evidenciava uma força espantosa. Jamais eu havia visto alguém mergulhar no medo com tal destemor, sem recorrer a nenhuma defesa. Quando saímos dali eu respeitava e admirava ainda mais o Roshi.

Quando voltamos de Cuiabá ele me convidou para irmos juntos ao Japão apresentar o projeto da Terra da Paz para algumas lideranças de Soto Zen. Ele embarcou dois dias antes, e quando cheguei veio me encontrar na estação central de Tokyo. Ficamos hospedados num vilarejo um pouco ao norte, no templo Kitijyo-in, cujo monge responsável, Togari Sensei, era amigo do Roshi. Moriyama me disse que Togari Sensei parecia muito fisicamente comigo. Jamais imaginei que um japonês pudesse ser parecido com um ocidental, e disse a Moriyama que isso só podia ser coisa da inusitada cabeça dele. Quando chegamos no templo Kitijyo-in era noite. No momento em que a porta se abriu, Togari Sensei e eu caímos na gargalhada. De fato o impossível as vezes acontece. Ambos nos achamos parecidos, e Moriyama Roshi ria ainda mais pois sabia que só então reconhecíamos o que ele antes dizia aos incrédulos que éramos.

Naquela primeira noite, ainda sob o efeito das 12 horas de fuso horário, acordei de madrugada e resolvi ir ao Dojo fazer zazen. Saí de meu quarto evitando causar barulho, e ao me aproximar do Dojo percebi luz de vela acesa. Era Moriyama Roshi a quem o fuso horário também devia perturbar o sono. Ele estava sentado em meio lótus, de olhos fechados, as mãos soltas sobre as pernas cruzadas, e movia o corpo. Seria sempre assim, o zazen de Moriyama Roshi quando meditava sozinho?

Dias depois ele me convidou para a visita que faria a uma amiga monja já idosa que sofrera uma fratura decorrente de uma queda, e fora se recuperar num Templo em uma vila interiorana. Esperávamos o Shinkansen na estação quando Moriyama Roshi me disse: "Essas pessoas fingem indiferença, mas estão escandalizadas por ver um monge Zen e um monge Shin juntos, e conversando como velhos amigos. Isso não acontece no Japão. ... Na verdade eu me sinto mais próximo a você do que a muitos dos meus colegas do Zen. Esses Mestres Zen são em geral muito chatos". Eu respondi que sentia o mesmo em relação a ele, e a alguns dos monges do Honganji. "Não consigo ter muita paciência com uns 'cabeções' lá do Honganji que devoram livros só para arrotar palavras em sânscrito ou chinês. Esqueceram o trecho do Dhammapada no qual o Buda diz que a colher pode ficar a vida inteira na sopa sem jamais lhe conhecer o sabor." Rimos muito. Ambos estávamos conscientes de que éramos estranhos no ninho em nossas respectivas instituições.

O templo onde a amiga de Moriyama Roshi se recuperava era pequeno. Entretido por nossa conversa, nem lembrei de perguntar como ela se chamava. Monjas nos esperavam à entrada e nos levaram ao altar principal onde reverenciamos a imagem do Buda Sakyamuni. Em seguida nos conduziram a uma pequenina sala com mesa e cadeiras onde a amiga de Moriyama Roshi nos esperava. Serviram-nos chá, e conversamos amenidades próprias à convalescência. O fato de eu ser monge do Hompa Honganji não motivou qualquer pergunta. Ali eu era apenas um amigo de Moriyama Roshi. Os silêncios pontuavam leves. Tudo quanto foi dito era simples, corriqueiro, fluia sem impactos, sem surpresas ou imprevistos. Transcorrido o tempo razoável, Moriyama Roshi anunciou despedida e saímos tão suavemente quanto chegamos. Um taxi nos esperava, e as monjas acenavam sorrindo. Foi somente depois que o carro partiu que eu então disse: "A sua velha amiga é uma das pessoas mais extraordinárias que conheci em toda a minha vida! Quem é esta monja?" Moriyama ria ao me responder: "Aoyama Roshi é superiora do maior seminário japonês para formação de monjas. Ela preferiu vir se restabelecer aqui nesse pequenino Templo em sua cidade natal". Ao que retruquei: "Aoyama Roshi??? Você é um malandro que me escondeu até agora quem era a sua amiga!" Moriyama ria: "Queria ver se você descobria..."

Chegou finalmente a véspera do evento mais importante de nossa viagem, o encontro com o Abade do Templo central de Soto Zen. Estávamos no Shinkansen quando Moriyama Roshi me disse que dormiríamos numa cidade próxima do Eiheiji. Acrescentou que um discípulo dele nos convidara para irmos a um karaoke após o jantar. Na manhã seguinte sairíamos muito cedo para a reunião, e eu precisava dormir cedo para descansar do ritmo frenético da nossa viagem. Mais complicado ainda, Moriyama Roshi era abstêmio, e a tarefa de acompanhar o discípulo em incontáveis copos recairia sobre mim. Numa sutil sondagem sobre a possibilidade dele ir sozinho ao encontro, constatei a inevitabilidade do meu sacrifício.

Pontualmente as 20:00 horas o discípulo chegou no Hotel. O karaokê distava poucas quadras, fomos caminhando. Era no andar de cima de uma casa antiga. Para entender o que vai acontecer a seguir é preciso, antes de subirmos as escadas, aclarar o que significa um karaoke no Japão. Trata-se de uma câmera de descompressão e sobrevivência para aqueles que após um dia sempre longo sob o jugo do mais implacável e tirânico super-ego cultural, ali podem finalmente beber, livrar-se das convenções, e relaxar antes de ir para casa dormir. Se a inesperada aparição de um gaijin já seria suficiente para inibir a todos, a entrada de um gaijin envergando paramentos budistas equivalia ao soar do toque de silêncio ou um rito fúnebre. Claro que Moriyama sabia antecipadamente disso. Por que ele insistiu que eu viesse? A dona do karaoke nos recebeu com um olhar que vagava entre a aflição e o desespero. Moriyama assumiu o comando e já no caminho rumo a mesa perguntou com risos provocativos: "A senhora tem yougurt para servir ao Gustavo e a mim, não é mesmo? Sim, não bebemos álcool! Se não tiver yougurt, pode trazer leite que também gostamos! Hahahahahaha! Mas por favor não esqueça de trazer uma garrafa de whisky aqui para o meu discípulo!" Moriyama Roshi me salvou de ter de beber, ao mesmo tempo em que liberou seu discípulo para derrubar a garrafa que o aprendiz bem precisava. Sim, pois esqueci de contar a face de pânico do pobre jovem quando, ao chegar no hotel, me viu junto com seu Mestre e anteviu a catástrofe que causaríamos no karaoke onde ele fizera reserva.

Minutos depois de sentarmos Moriyama levantou-se, pediu o microfone, e em voz bem alta anunciou a todos que ia cantar "My way". Após os primeiros acordes do introito orquestral fomos impactados pelo belíssimo timbre baritonal, o ouvido afinado, e a musicalidade de um crooner profissional. Mais do que isso, estávamos assistindo um one-man-show incomparável, a cantar caminhando entre as mesas, fazendo vez ou outra piadas engraçadas com os clientes que ele mesmerizara como um encantador de serpentes. Quando terminou, o karaokê aplaudia e gritava bis num tal frenesi que Moriyama concedeu uma canção japonesa cuja interpretação foi igualmente primorosa. Ao terminar, ele entregou o microfone a um cliente obviamente animado, e disse: "Agora é a sua vez!" Pronto, a noite estava salva. Com o seu show, Moriyama Roshi conseguiu o milagre de me tornar invisível! O gaijin com paramentos do Hompa Honganji que incompreensivelmente era amigo de um Mestre Zen foi esquecido, desapareceu, e o cotidiano daquele pequeno estabelecimento voltou a sua rotina de risos, e brindes infindáveis.

Pouco antes das 22:00 horas Moriyama Roshi anunciou partida. O discípulo já sorvera quase metade da garrafa de whisky, o Mestre havia atendido ao convite, eu tinha bebido suco de frutas, e todos podíamos ir dormir cedo. A dona do karaoke não cabia em si de gratidão pois o Roshi não apenas salvou a noite do desastre, mas acrescentou uma história mirabolante que todos ali iriam partilhar com seus amigos. "Você não imagina! Entrou um Mestre Zen com um amigo gaijin que era monge do Hompa Honganji..." A boa senhora fez questão de descer conosco até a rua para enfatizar seu agradecimento. Depois de completada a despedida, eu fui ao ouvido de Moriyama e sussurrei: "Hoje eu descobri porque lhe deram o grau de Roshi!" Ele fingiu surpresa e muito sério respondeu: "Então não conte isso para ninguém!" e caímos na gargalhada.

O Mestre tentou despachar seu discípulo borracho mas o rapaz, que se sabia salvo do vexame ao qual antes se julgava condenado, fazia questão de retribuir acompanhando-nos até o hotel. Logo aos primeiros passos eu notei que o jovem lutava por seguir uma imaginária linha reta a qual, como um cavalo chucro, insistia em corcovear. Seguimos em silêncio e não demorou me dei conta que Moriyama Roshi sutilmente começava a oscilar. O passagem da sobriedade ao embebedamento fluiu suave qual o correr de um regato sobre leito sem pedras em declive mínimo. O entertainer que pouco antes encantou o karaokê saiu de cena e surgiu um mímico de espantosa competência. Reduzi um pouco o ritmo de meus passos para poder apreciar a maestria com que Moriyama, muito sério, encarnava seu novo papel. Uma quadra depois o silêncio foi quebrado por uma incontrolável gargalhada. O discípulo finalmente havia se dado conta que havia um espelho onde antes estava a rua, e no reflexo viu um monge muito bêbado que era igualzinho ao seu mestre! Até aquele momento eu estivera quieto, absorto, admirando Moriyama que me levara de volta a juventude quando maravilhado assisti em reverente silêncio Marcel Marceau em cena. A performance terminou com transeuntes perplexos que cruzavam por dois monges e um leigo, todos a rir desbragadamente, de tão embriagados que estavam.

Eu já conhecia o Templo Eiheiji de visitas prévias, mas agora tudo era diferente pois eu estava na companhia do Roshi. O jovem noviço de semblante sério que nos atendeu na recepção transpirava muito enquanto ouvia Moriyama Roshi explicar que tínhamos uma reunião marcada com o Abade. Em seguida quando caminhávamos nos corredores, meus paramentos do Hompa Honganji relampejavam perplexidades sobre todos com quem cruzávamos. Juntos ali, Moriyama e eu éramos um enigma vivo e candente. Quando entramos na sala do sucessor de Dogen, fui recebido com uma exclamação dita em voz bem alta: "Você é um homem de sorte!" Ao que respondi: "Sim, sem dúvida, senão não estaria aqui". Esperava que ele perguntasse "O que é sorte?" mas a indagação que ouvi foi outra. "Você sabe que veio na companhia do nosso número um?" Ao que retruquei: "Eu sempre suspeitei que Moriyama Roshi era o número um, mas agora tenho certeza já que o senhor o afirma."

O título de Roshi (grau mais alto na escola Zen) é concedido aos Mestres que se destacam em alguma área relevante para a difusão do Dharma. Alguns Mestres se tornam Roshi pela proficiência acadêmica, outros pela capacidade empreendedora na criação de Templos, escolas, etc. Moriyama recebeu o título de Roshi por sua maestria em zazen. Ele sabia que meu primeiro contato com o Budismo, na década de 60, foi através das obras de D. T. Suzuki. Comecei a praticar zazen seguindo instruções que encontrei em livros. Somente após alguns anos meditando sozinho foi que conheci o Professor Murilo Nunes de Azevedo que já era ordenado em Soto Zen, e me deu as primeiras instruções pessoalmente. Mesmo após minha ordenação em Shinshu (tradição cuja única aparente prática é a recitação do Nembutsu) continuei fazendo zazen, e orientando grupos de alunos que desejavam meditar. Minha história de décadas com zazen foi ponto de partida para inúmeras perguntas que fiz a Moriyama Roshi. O único comentário prático que consegui extrair dele foi quanto a posição de pernas. Quando indaguei sobre a postura do lótus completo, do meio lótus, e zazen sentado em cadeira, Moriyama foi peremptório: "A posição de pernas não é importante, a da coluna vertebral sim".

Estávamos no Kitijyo-in quando certa manhã Moriyama Roshi me disse que precisava ir a Tokyo para fazer a bênção do escritório da corretora de valores de um discípulo, e perguntou se eu queria vir. O convite abria uma oportunidade preciosa. No caminho eu comentei que não sabia que o Zen realizava cerimônias de cunho propiciatório e perguntei como elas eram entendidas. Ele me disse que o Zen em geral não fazia essas cerimônias. O rito que fazia era originário do Shingon, e invocava os Dhyani Budas, os Budas cósmicos que constituem com sua meditação os pontos cardeais, o centro, e formam a mandala primordial. "Eu só faço essa cerimônia para alguns discípulos quando sinto que os pode ajudar". Na década de 70 eu havia estudado Shingon e Budismo tibetano, mas foi na conversa com o Roshi que meus olhos se abriram para questões espirituais que mais tarde, num momento crucial de minha vida, inspiraram o Rito da Montanha Sagrada. Ao sairmos de lá eu disse que pretendia adaptar aquela cerimônia ao Nembutsu do Outro-Poder. Do ponto de vista doutrinário, a proposta parecia tão absurda quanto falar de um ferro de madeira. Ele achou a ideia muito boa. Desde então tenho realizado bênçãos atendendo a alunos, inspirado no que Moriyama fazia para seus discípulos.

Algum tempo depois de voltarmos do Japão convidei Moriyama Roshi para um fim de semana em Paraty na casa de um casal de amigos. Expliquei aos nossos anfitriões que não se preocupassem com alimentação vegetariana. Chegamos no fim da tarde e no jantar descobri que meus amigos haviam preparado opções vegetarianas para Moriyama e um pernil de vitela, prato que sabiam eu apreciava. Moriyama ficou curioso ao ver o assado e perguntou o que era aquilo. Ao escutar a resposta disse: "Quero provar. Eu nunca comi pernil de vitela antes".

Moriyama Roshi concluiu sua formação em Zen trabalhando na cozinha do Eiheiji. Quando me contou isso, disse que um dia ia preparar um jantar para mim. Ambos naquele momento ignorávamos que nos faltavam méritos para podermos usufruir da ocasião que ele e eu desejávamos, e em vão nos prometíamos. No curso sinuoso da vida, adiante uma curva misteriosa nos aguardava.

Meus amigos cozinham com rara maestria, e no dia seguinte quando saímos de barco eles comandavam a cozinha. Curioso com a receita e os ingredientes incomuns, Moriyama Roshi foi acompanha-los enquanto cozinhavam o almoço. Ao ver a porção que estava sendo preparada, dentro do espírito estrito de um Mestre Zen, o Roshi disse: "Desculpe, mas não será comida demais para nós?" O meu amigo explicou que os marinheiros do barco também iam almoçar. De imediato Moriyama, de mãos postas, reverenciou o acionista de uma grande empresa em cujo barco os marinheiros comiam as receitas primorosas cozinhadas pelo patrão. Um mestre reverenciava outro mestre, e eu tinha o privilégio de ser amigo de ambos.

Naquela tarde, enquanto o Roshi e eu conversávamos, a esposa de meu amigo ergueu a câmera para nos fotografar, ele percebeu, e olhou direto para a teleobjetiva. Dias depois recebi por e-mail a foto. O olhar de Moriyama Roshi tinha uma intensidade impressionante. Mas o que me impactou não se restringia a isso. Jamais vi uma expressão tão nítida da diferença entre o espírito do Zen e o espírito do Shin como no contraste entre nossas expressões. No Japão, o Zen foi o caminho espiritual dos guerreiros, dos samurai, surgiu e se propagou justo quando eles ascendiam ao poder. Aqueles homens precisavam saber lutar e comandar, ou então morriam. O Zen é uma expressão radical de Jiriki, o Poder-Próprio. O Shin surgiu entre os agricultores, foi o caminho espiritual dos desvalidos. Aquelas pessoas precisavam saber cultivar a terra e confiar no céu, ou então morriam. O Shin é uma expressão radical de Tariki, o Outro-Poder. Inspirada, a minha amiga havia enquadrado na foto em close apenas Moriyama Roshi e eu. Muitas vezes voltei a essa foto e sempre me surpreendi com a clareza com que dois caminhos espirituais opostos se expressavam em nossos semblantes ao mesmo tempo que a energia da amizade que nos unia evidenciava quão harmônicos e complementares em suas radicais diferenças eles podem ser.

Moriyama depois voltou ao Japão e anos se passaram sem nos vermos. Em abril de 2011 eu ia levar alguns alunos para uma viagem-peregrinação ao Japão. Em janeiro, graças a minha amiga Coen Sensei, entrei em contato com um discípulo do Roshi em Tokyo. Ele me disse que Moriyama ficava a maior parte do tempo nas montanhas, onde tinha construído um pequeno Templo. Combinamos um encontro com o Roshi em Tokyo, para que ele conversasse com meus alunos quando as cerejeiras estivessem floridas. Ainda antes de nossa viagem, o Roshi viria ao Brasil, e eu então o reveria primeiro aqui. Tudo acertado, o discípulo me disse que o Roshi ficara feliz com o convite para o encontro, mandava-me um grande abraço, e pediu também para avisar que ao chegar no Brasil ele me telefonaria.

No dia 18 de fevereiro de 2011 Moriyama Roshi saiu do Templo Kitijyo-in onde estava hospedado para caminhar e nunca mais foi visto. Quando Togari Sensei percebeu que Moriyama não voltava nem dava notícias, ligou para os discípulos do Roshi que de imediato se mobilizaram, e varreram todas as possibilidades conhecidas. Dias depois comunicaram o desaparecimento a polícia que mobilizou sua própria investigação. Em março Fukushima foi devastada pelo tsunami. Em julho o governo japonês encerrou as investigações e Moriyama Roshi foi dado como desaparecido. Somente seus discípulos seguiram buscando.

Segundo a tradição, Bodhidharma, o fundador do Zen, não morreu, partiu um dia para o oeste e jamais retornou. Moriyama Roshi seguiu os passos de Bodhidharma.

Durante os três anos desde que o Roshi desapareceu, incontáveis vezes tenho lembrado, com saudade, do meu amigo. Ao início, quando recebia notícias das investigações, no fundo confiava que não iam conseguir encontra-lo. Se o Roshi queria desaparecer sem deixar rastros, ele haveria de ser capaz de o fazer. Nem o empenho amoroso de seus muitos discípulos, nem toda a tecnologia investigativa de um país organizado como o Japão poderiam vencer a mente em sintonia com o Buda.

Seres iludidos como nós, vivem em busca de respostas. Quando julgamos encontrá-las, nos aferramos às nossas supostas certezas sem percebermos o mistério que perdura insondável no fundo do quanto imaginamos esclarecido. A explicação é apenas um mistério de nossa autoria que acrescentamos a todos que o universo guarda consigo. Moriyama Roshi foi o Mestre do enigma. O seu desaparecimento foi o último e compassivo ensinamento, o supremo koan de um expoente maior do Soto Zen.

Quanto aos dois amigos que riam sempre quando estavam juntos, o reencontro infalível já foi marcado pela Grande Vida. Quando minha tarefa neste mundo estiver cumprida serei então eu a cruzar a curva da estrada, e para além do espaço-tempo, no interior da Luz-Vida infinita, o eterno vestirá outra vez a mascara das derradeiras personalidades para que os amigos se reconheçam. Os risos vão soar novamente, tal como sucedeu tantas vezes aqui, e em seguida as mascaras desaparecerão. Onde pareciam existir dois, luzirá a suprema unidade, mistério insondável, sem princípio nem fim, além de nome e forma. Namanda! ¬

São Paulo, 12 de outubro de 2014
Shogyo Gustavo Pinto