Monja Coen Roshi

Santidade é a leveza de Deus

Fernando Altemeyer Junior*

Santo é um atributo de Deus. Por filantropia é estendido à toda a humanidade. Ser santo para um católico é fazer parte da comunhão dos que têm esperança. Dos que assumem seguir Jesus Cristo como caminho, verdade e vida. Santo católico é exemplo de quem tem sede de plenitude.

Ser santo é dispor-se a ouvir Deus nas veredas do viver.

Ser santo é agir em favor da criação e da humanidade.

Ser santo é uma disciplina teimosa em favor da vida dos pequenos, excluídos e perseguidos.

A idéia central da santidade cristã é participar da vida de Deus. Viver dia-a-dia as bem-aventuranças do Evangelho de Mateus. Não é heroísmo, mesmo que alguns heróis sejam considerados santos. Não é exemplaridade, embora o jeito fiel de viver a fé cristã seja tomado como exemplo por muitos seguidores.

Ser santo é um estilo de vida. Um jeito de encarar o mundo e os outros. Uma liberdade interior, que degusta o sagrado e o ultrapassa.

Definia-se santo na antiguidade como testemunha ou mártir. Depois como virgem. No século XI, a oficialização da canonização tornou os santos figuras institucionais. Ao preencher o calendário litúrgico tornaram-se guias do Evangelho. Temos 180 grandes santos no calendário e cerca de seis mil e setecentos nomes no Martyrologium Romanum. Nesta lista já há uma ítalo-brasileira: Madre Paulina. Hoje foi incorporado um brasileiro nato do Vale do Paraíba, Antônio Galvão de França, Frei Galvão.

O que são os santos? Páginas vivas de Deus convivendo conosco.

Por que existem santos? Por misericórdia de Deus.

Para que santos? Para dizer a cada um de nós que somos pessoas amadas pelo Criador.

Que fazem os santos? Vêem Deus onde ninguém o vê, o proclama ou o reconhece. Agem de forma paradoxal. Com certa loucura e audácia crítica, inclusive para a própria instituição religiosa. Santo está sempre mais próximo do carisma que do poder.

Houve santos que desnudaram o poder pela transparência de suas almas iluminadas.

Falar diretamente com um santo é calar-se para haurir forças dele e ao mesmo tempo falar longamente da própria vida diante de um confidente paternal. Santos são bons conselheiros.

Olhar um santo é descobrir que na mais profunda humanidade existe chama de amor. É ver em pessoas normalíssimas, curvaturas antropológicas essenciais. Sim, um santo católico é sempre alguém curvado. Debruçado para os demais. Um santo verdadeiro é promotor da paz. Santos são sempre leves. Eis porque alguns até levitam.

Houve séculos masculinos, mas em tempos medievais santidade teve caráter feminino. Hoje a santidade passa mais pela família e por comunidades. Sinal coletivo em tempos fragmentados.

Frei Galvão abriu as portas do céu à imensa multidão dos amigos de Jesus que vivem em terras brasileiras. Poderemos brevemente venerar os padres Victor Coelho, Eustáquio, Mariano, Josimo Moraes Tavares, Cícero Romão Batista, José Anchieta, Ezequiel Ramin, Rodolpho Lunkenbein, João Bosco Penido Burnier; as religiosas Dorothy Stang, Creusa Nascimento, Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes (irmã Dulce), Adelaide Molinari e os leigos cristãos Sepé Tiaraju, Santo Dias da Silva, além dos inefáveis dons Luciano Pedro Mendes de Almeida e Hélder Pessoa Câmara.

* teólogo, doutor em Ciências Sociais, Ouvidor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.