Monja Coen Roshi

Ano Buda 2572

Quando a velha ameixeira desabrocha, o mundo inteiro desabrocha.
Quando o mundo desabrocha a primavera chega.
As cinco pétalas desabrocham como uma só flor – três, quatro, cinco, cem, mil, incontáveis flores desabrocham.
Todas essas flores crescem em um, dois, incontáveis galhos da velha ameixeira.
Uma flor udumbara e uma flor de lótus azul também desabrocham no mesmo galho.
Todas essas flores constituem as graças da antiga ameixeira.
Tal ameixeira antiga cobre os mundos humanos e celestiais. Esses mundos surgem da velha ameixeira. Centenas de milhares de flores são as flores dos seres humanos e celestiais. Milhões de flores são as flores dos Budas e Ancestrais do Darma. Quando essa espécie de ameixeira desabrocha, todas e todos os Budas surgem neste mundo e Bodidarma se manifesta.

(Shobogenzo Baige – Mestre Eihei Dogen)

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Ano Novo 2006

Todos os anos o Imperador do Japão escolhe uma palavra para que se façam poemas. Este ano o tema de poesia nacional é o amor.

Que doce pai é o imperador. Ele leva toda a população a refletir sobre o amor. O amor que fez sua filha renunciar ao título de princesa e se mudar do palácio imperial para um condomínio fechado. A princesa que virou plebéia. As histórias infantis sempre foram o inverso. A jovem pobrezinha, maltratada e maltrapilha, que encontra o príncipe encantado e se torna uma rainha. No caso da ex-princesa o seu marido plebeu não se torna aristocrata. Ela abandona as mordomias palacianas, enquanto seu irmão, que também se casou com uma plebéia, não perdeu o título nem abandonou coisa alguma.

Mas, que coisa fascinante. O Imperador não tem nenhum neto varão. Netas e mais netas. Apenas mulheres e por isso estão estudando mudanças nas regras e procedimentos, pois o futuro aponta para a possibilidade de uma Imperatriz. Não será a primeira nem a última. Quantas teriam sido as imperatrizes na terra do sol nascente?

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Branca, minha mãe

Você está vivendo talvez seus últimos momentos.

A respiração é simultânea pela boca e pelas narinas.

Seus pés estão marcados por futuras escaras.

A trombose na perna esquerda a deixa inchada e quente.

Minha mãe, sua face magra e enrugada, sua boca sem dentes, revela seu nariz reto e está mais parecida com a jovem da fotografia em cima da lareira.

Como era jovem, esbelta e bela.

Aos poucos eu a vejo fechando o sistema de seu organismo.

Já não abre as pálpebras. Já não sorri. Não me beija.

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São Paulo Fashion Zen

fashion_zen_gNem Federico Fellini teria pensado numa imagem tão surreal: uma Monja zen budista na primeira fila do desfile de Lino Villaventura.

A causadora de tanta “estranheza” é a Monja Coen, a primeira mulher e pessoa de origem não japonesa a assumir a Presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil, que veio ao evento à convite do SPFW Journal. Sentada com os pés juntinhos, mãos descansadas sobre os joelhos, cabeça raspada e uma roupa muito simples de algodão branco, a Monja iluminada (sem a necessidade dos holofotes) chamou a atenção da imprensa e dos convidados.

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Hoje eu sei

Publicado em Redação Criativa - Editora Globo

Hoje eu sei que a compaixão é capaz de transformar o mundo e transformar o ser.

Hoje eu sei que a compaixão pode ser desenvolvida, cultivada, que as áreas do cérebro responsáveis pela compaixão podem ser estimuladas.

Hoje eu sei que é possível "musculação de neurônios" através da meditação e do pensamento amoroso, terno, inclusivo, compreensivo, sábio.

Hoje eu sei que Buda se manifesta em cada ser que se entrega à bondade e ao Caminho do Bem, que é o Caminho Iluminado.

Hoje eu sei que a Verdade é o Caminho.  A Verdade com "V" maiúsculo, onde tudo está incluso - até mesmo as mentiras.

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Minha mãe morreu

Minha mãe morreu lenta e suavemente. Era uma tarde quente.

Sentada na poltrona de repouso respirava mais leve do que nunca.

Eram duas inspirações, duas expirações e uma pausa. Parecia um pequeno pássaro.

Pela manhã, ao acordar, eu havia me deitado ao lado dela na cama e segurado sua mão. Pequena mão de dedos retorcidos pela artrose, que agora ficava largada dentro da minha. Estava quente e a transpiração dela, nessa manhã, foi diferente. Algo mudara na química de seu corpo. Minha mãezinha. Nas últimas semanas eu vinha ao templo meio sem vontade de deixa-la. Quando chegava a hora do almoço entrava em casa feliz por poder tocá-la, sentir o calor de seu corpo de noventa e seis anos. Quase um século.

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Fim da copa

Para onde voltar quando o mundo é minha casa? Há volta para brasileiros que
já são internacionais?
Estamos sempre indo, indo, tendo chegado e tendo ido.
Onde estamos é nosso lar.
A casa comum, o planeta Terra.
E como essa visão modifica o patriotismo, que só aparece atualmente nos
jogos de futebol.
Que pátria é essa para a qual não se retorna?
A Terra una já não mais se separa.
Jogadores internacionais se reconhecem iguais.
Perder uma copa não é tão triste para eles.
É triste para nós.

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Vida

Todos os anos o Imperador do Japão escolhe uma palavra para a população escrever poesias.
Há concursos e discursos. Há declamação e há aqueles que escrevem para si mesmos, como diversão.
As monjas e monges escrevem como prática religiosa e se acaso morrerem, esse poema se tornará seu epitáfio.
A palavra deste ano é Inochi.
Inochi significa vida.
Inochi também significa destino, decreto, comando.

Ao escolher uma palavra o Imperador faz com que todos reflitam sobre ela.

Vida.

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Cultura de Paz, Não Violência

Eu estava em Nova Delhi, na Índia, no dia 30 de janeiro passado.  Era o dia Memorial de Mahatma Gandhi.
Corria sozinha pelas ruas próximas do hotel e  numa rotatória vi o pôster grande, com a foto de Gandhi,  anunciando um Seminário sobre Cultura de Paz, Não violência e empoderamento.
Parei para cumprimentar o sol que despontava.  Dourado.
Empoderamento – talvez essa seja a maior dificuldade atual da Índia, pensei eu.  Pessoas acomodadas na pobreza, na desigualdade, na injustiça.
Onde estariam os ricos?  Em que bairro moram os de classe média alta?  Como são suas casas, seus seguranças, seus jardins, sua água?

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Mãos

Minha mãos estão envelhecendo.
Eu as vejo envelhecer, os dedos engrossados pela artrose.
Raramente vejo meu corpo.
De repente, em um hotel, há um espelho e me surpreende encontrar esta senhora de carnes flácidas.
Sou eu.
Quem sou eu?
O corpo que se transforma e a mente que não percebe.
Surpresas.
Então me proponho a fazer dietas, exercícios.
Quimeras.

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