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Impedimento

Texto da última coluna da Monja Coen para o jornal O Globo de dezembro, nã0 publicado

Impedimento, gritou a torcida, entre vaias e assobios.

Não, gritou a outra torcida com gestos veementes.

As câmeras de TV podem ter uma solução?

Estaria impedido o jogador, a jogadora?

Estaria sem adversários à sua frente ou ao seu lado quando recebeu a pelota?

O bandeirinha levantou a bandeira e o juiz marcou.

As vezes os juízes marcam impedimentos não impedidos.

Um erro de visão, um momento de distração.

A TV, que tudo vê, revela a falta.

As torcidas se torcem e distorcem a realidade.

No futebol e na vida.

Só que na vida a TV que tudo vê também pode alterar o que nós vemos. Basta um ângulo e tudo muda.

Como percebemos a realidade?

O que é real?

A imagem pode ser montada e remontada.

A imagem pode ser de tal ângulo que revele o que não é.

Entretanto convence.

Há muitos impedimentos na vida.

Uma via impedida, significa que não podemos passar por ela.

Posso impedir você de entrar na minha casa, mas não posso impedir você de passar pela calçada da rua.

Impedimento é uma palavra que vem do latim – impedimentu: ato ou efeito de impedir; obstáculo, embaraço, estorvo. (Dicionário Aurélio)

Embaraçar alguém, criar um obstáculo, se tornar um estorvo.

“Estorvinho, venha cá.”

Seria assim que a madrasta chamaria a Gata Borralheira, a menina das cinzas - Cinderela?

Ela era um estorvo, um impedimento, um obstáculo para suas feiosas filhinhas.

Porque era bela e porque era boa.

Impedir é impossibilitar a execução ou prosseguimento, servir de obstáculo, obstruir, opor-se, não consentir.

Gostaria de impedir crimes e atrocidades.

O Presidente Obama urge os Senadores dos Estados Unidos da América do Norte a votarem contra a venda irrestrita de armas no país. Tantos assassinatos. E ele tem adversários, impedimentos, pessoas de outros pensamentos que servem de obstáculo, que se opõem, que não consentem.

Gostam das armas, da sensação que tendo armas em casa podem se defender, matar, ferir e não morrer.

Nem sempre é assim.

É difícil desarmar-se, desfazer couraças de medo.

Buda dizia que o maior presente é o não medo.

Entretanto não é o não medo de matar ou morrer, como alguns jovens vem se destacando no mundo.

Uma vingança? Vingar a quem?

Ao mundo que não me viu e não me vê, que não me elegeu e agora quero destruir?

Acho que não são apenas os jovens do chamado Estado Islâmico.

Olhe em profundidade em você e à sua volta.

O que é um crime de responsa?

O que é responsabilidade?

Você sabe o que seu filho está escrevendo agora no face?

O crime dele é seu?

Havia um poema na minha infância chamado “O crime de hoje”. Contava a história de um jovem menino, analfabeto, que vendia jornais pelas ruas gritando:

“crime de hoje” e não sabia que o criminoso era seu pai.

É preciso saber ler. Não apenas a leitura de livros, jornais, mas saber ler a vida. Ver através. Observar em profundidade, longe, muito longe e perto, muito perto para perceber que não há nada fixo, nada permanente, que não há pelo que matar ou morrer, mas há muito pelo que se viver.

Viver de forma impecável, imaculada, é agir com pureza segura, com todo o coração. Como a flor de lótus cuja textura impede a poeira de se assentar.

As raízes estão na lama, mas são branquíssimas por dentro. A sujeira do mundo pode ser adubo para seres puros e imaculados surgirem.

Basta fazer o bem a cada instante lembrando que estamos todos interligados a tudo e a todos.

Então, cuidemos.

Cuidemos da nossa mente e do nosso corpo – individuais e coletivos.

Que nossas ações, palavras, pensamentos sempre levem em consideração a impecabilidade, a ética e o bem maior do que o individual.

Isso nos leva ao contentamento e a suficiência que aumentam nosso Índice de Felicidade Interna Bruta.

Vamos observar a impedância: o quociente entre a amplitude de uma tensão alternada e a amplitude de corrente que ela provoca em um circuito.

Tensão e corrente na amplitude do Inter Ser.

Que nossos circuitos sejam tão suaves e macios como um lenço de seda branca.

Mãos em prece

Monja Coen