Monja Coen Roshi

Confiança

Texto da Monja Coen publicado no jornal O Globo de 12/11/2015

 Unir, fiar, tecer, juntar, fortalecer para o bem de todos os seres. Sem perdedores. Que tal acreditar?

Há fiança para o crime da descrença na vida e na imprensa? Confiança é fiar junto. Estamos fiando juntos a vida na Terra? Com certeza.

Mas que fios estranhos e sinistros são esses, reis, imperadores, guerreiros, senhores, governantes, ministros? Que notícias descontentes, sem empenho em ser decentes, apenas manipulando a própria mente.

Mente que mente por trivialidades, poderes transitórios, arroubos partidários. No mundo, gente. No mundo.

Futebol, circo, navios, guerras, bombas, países, aviões e armas. Quem fala em desarmar é tido de covarde, bobão, tolo.

Defender e lutar. A luta armada já passou e deixou tristezas e mágoas. Agora é época de não lutar mais. Será que a gente nunca aprende?

Unir, fiar, tecer, juntar, fortalecer para o bem de todos os seres. Sem perdedores. Todos ganham juntos. Que tal vir brincar essa antiga e nova brincadeira de fiar, de confiar, de acreditar?

Tecendo com fios de seda, brilhantes e multicoloridos, a esperança de reconhecermos juntos a nossa humildade, Humanidade, o nosso húmus da Terra, da qual somos filhos e filhas.

Mãe, eu não queria tê-la feito sofrer e chorar. Família em luto na luta dos desencontros. Na briga e nos confrontos, sem despertar. Separa ação. Tristeza. Poderia ser uma grande e única nação.

Fiar é dar a palavra, reafirmar a palavra dada.

Há quem não venda fiado, pois já não se confia em mais nada. Antes se confiasse no nada, no vazio, na certeza da incerteza.

Há fiança para a desconfiança? Fiança é cavalo querido, todos os cavaleiros o apreciam, é confiável. Quem é o cavalo da hora? O fiança, a fiança do agora? Está no céu ou no mar? Perdeu-se na nuvem polar? Está entre os inovadores ou entre os conservadores? Queria tanto reencontrar Fiança.

Poderia sair galopando faceira pela Terra inteira. Nada me impediria de chegar aonde quer que fosse para levar a notícia de que os seres humanos se reconheceram. Ao se reconhecerem, se respeitaram. Ao se respeitarem, passaram a cuidar da vida que palpita em cada molécula, átomo, partícula.

Ah, Fiança, por que caminhos se enroscou

minha montaria?

Será que alguém o escondeu?

Vamos pensar que o estão tratando bem. Afagando seu pescoço, penteando sua crina, dando banho, passeio, carinho, cenoura, comida da boa. Esse pensamento me conforta.

Pois Fiança me espera para que juntos possamos unir os corações em concordância, recordar e lembrar de cor, buscar na grande memória a coragem de fiar.

Fiar com fios mágicos os corações rotos, partidos, quebrados. Para que fiquem novamente unidos no compromisso de fidelidade, no ato de confiar na análise verdadeira dos fatos.

Poder ver em profundidade. Compreender claramente e desabrochar em fragrância na primavera itinerante que se abre aqui e ali.

Vou cobrir essa fiança e demonstrar a inocência da decência da vida e da imprensa, da mídia e da mente humana, que, no fundo, bem no fundo, anda carente de saudades de juntos fiarmos a trama da existência.

Mãos em prece!