Monja Coen Roshi

Barco ao mar

Texto da Monja Coen publicado no jornal O Globo de 28/05/2015

Ele não está perdido no oceano do nascimento, velhice, doença e morte. O voto de fazer o bem a todos os seres nos leva ao porto seguro

Estamos a sós e sem SOS. Não há terra à vista. Não há outros barcos. Não há outros seres humanos. Não há água potável. Os alimentos terminaram e já não temos mais força para continuar, pois os remos se foram, a vela se perdeu e o barco não tem motor. O que fazer?

Sobreviver.

Não são apenas os náufragos, em pequenos botes, atravessando mares e oceanos à procura de uma vida melhor, que morrem nas águas salgadas. Alguns arremessados por seus companheiros, outros caídos de fraqueza. E ainda há aqueles que não são acolhidos em nenhum país, que não recebem permissão de desembarcar em nenhum porto.

Existe um porto seguro? Há um local além do bem e do mal?

“Não há nada seguro neste mundo”, era o que dizia Buda.

Há quem tenha casa, carro, emprego e se sinta como o naufrago sem eira nem beira. Não ouve, não vê, não cheira. Perde o contato com a realidade, vive na fantasia da depressão, da solidão, da angústia, da raiva, da revolta. Vítima de si mesmo, culpa a tudo e a todos.

A culpa é do partido político, é do governo, é do povo. A culpa está em toda parte, menos em si mesmo. E todos são julgados e decretados culpados. Apenas o eu menor, cheio de si mesmo, preso ao seu corpo de dor, sente a sua grandeza. “Ninguém sofre como eu sofro.”

De certa forma, é verdade. O sofrimento de cada pessoa é único e o maior de todos, pois é o seu. Entretanto, se e quando somos capazes de sair do casulo individualista, podemos abrir as asas devagar e, talvez com certa dor, voar além de nós mesmos.

Esse é o ensinamento de Buda, o ensinamento Zen.

Além, muito além repousa o Eu Maior. Esse além é bem aqui, neste momento, neste local. No agora.

Tranquilo e faceiro, em presença absoluta, aprecia a vidamorte, sem resmungar e reclamar.

No barco, perdidos e sós, ainda podemos respirar. A dor nos lábios nos força a torná-los imóveis, calados. A língua grossa se alegra no silêncio das palavras. Vemos o mar e reconhecemos as nuances de azul e verde das águas, dos céus. Tantas possibilidades.

O Sutra do Coração da Grande Sabedoria Perfeita se inicia assim:

Quando Kannon Bodisatva praticava em profunda Sabedoria Perfeita claramente observou o vazio dos cinco agregados, assim se libertando de todas as tristezas e sofrimentos.

O ser iluminado, símbolo da compaixão ilimitada — Kannon Bodisatva — pratica, exerce a sabedoria perfeita. Vê com clareza, observa em profundidade e percebe que não há nada fixo ou permanente. Tudo flui como as águas do mar.

Cinco agregados são a forma física, as sensações, percepções, conexões neurais e consciência. Isso constitui um ser humano e este está sempre se transformando, transmutando.

Cada momento é único e nosso olhar profundo revela que a tristeza e o sofrimento também não são fixos nem permanentes. Isso é libertação. É capacidade de apreciar a vida em seus múltiplos momentos únicos e diversos.

O barco não está perdido no mar do nascimento, velhice, doença e morte. Quando fazemos o voto de fazer o bem a todos os seres, as águas levam o barco tranquilo ao porto seguro do contentamento e da apreciação da existência. Não estamos a sós.

Respiração consciente, presença absoluta levam à apreciação do tranquilo cessar das oscilações da mente.