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Água

Texto da Monja Coen publicado no jornal O Globo de 08/01/2015

Sua ausência nos faz doentes. E está faltando. Aqui e acolá. Culpa dos céus? Carma de uma área do país que falava mal de outra?

De chuva, de rua, de enchente, de poço, de fosso. De fossa, de bossa, de lágrima, de saliva, de sangue, de pleura. De fonte, de filtro, de beber, de banhar, de purificar, de lavar, de descarga, de piscina. De hospital, de clube, de presídio. De prédio, de casa, de fazenda, de convívio.

Em toda parte, presente. Sua ausência nos faz doentes. E está faltando. Aqui e acolá. Culpa dos céus? Vingança divina? Seria carma de uma área do país que falava mal de outra? Causas e condições. Boas e más administrações. Corretas e incorretas decisões.

Corrigindo o erro é que se aprende. Mais do que perder ou ganhar eleições é saber agir na hora certa para beneficiar o maior número de seres. Administração pública precisa administrar também as privadas. Ócio.

Uma vez perguntaram a um monge sobre Buda. Onde estaria, como se manifestaria? Estaria nos céus? Manifestar-se-ia em odores suaves, em pensamentos elevados, em filosofias e em preces? O monge, simples e direto, respondeu: no bastão de limpar fezes.

(Naquela época não havia papel higiênico, e usavam um pequeno bastão de madeira para limpar o ânus antes de o lavar com água e algumas vezes também com água e com cinzas. Cinzas eram e ainda são usadas como sabão).

Onde está Buda? O que é Buda? Um ser humano da antiguidade? Um estado mental? Uma deidade? Podemos também considerar como a capacidade de ver com clareza e tomar decisões corretas que beneficiem a todos. Decisões que beneficiem apenas um partido, um grupo, uma ideologia, uma forma de pensar não são consideradas decisões iluminadas. A palavra Buda quer dizer isso — o Iluminado, o Desperto.

Há tantos zumbis pela Terra. Como fazer com que despertem, com que acordem e concordem em unir inteligências, capacidades, interesses para o bem comum? Ganância, raiva e ignorância são os três venenos que desviam seres humanos do Caminho. Por isso há tiros, há terror, há assaltos, há facadas, há decepar, mutilar, matar e morrer.

Você pode imaginar um mundo onde não haja nada pelo qual matar ou morrer? Um mundo em que possamos viver em harmonia e respeito, nos interessando por culturas e pensamentos diferentes dos que nos ensinaram em casa, na escola, na rua, no bairro, na cidade, no estado, no país?

Abrir portais de percepção. Não pela droga, para o vício, para a farra e o desperdício. Abrir os portais da mente através da oxigenação das células — respiração correta — para nos percebermos humildes e simples criaturas, que necessitamos uns dos outros e cada um necessita de todos. Sobrevivência em humildade e respeito.

Procuremos o silêncio. Quando falta, há menos verde. Quando excede, há menos verde. Nos olhos do agricultor, a tristeza. Nas feiras, a pobreza. Nas pessoas, a fome. Crianças da África magérrimas. Que dor. Agora sabemos, um pouco, o que é sede, o que é cheiro de corpo sem banho, roupa sem lavar, pia suja — insetos, vermes se divertem.

Vamos cuidar? Sem ofender, sem xingar. Com gestos, palavras e pensamentos amorosos e gratos, inclusivos e castos. Vamos levar adiante a vida do DNA humano? Continue acreditando e criando causas e condições adequadas para que todos nós possamos despertar. E viver em harmonia, compartilhamento e paz.

É possível. Buda disse: "Minha Terra Pura jamais será destruída."

Mãos em prece.