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Por um ano-novo mais zen

Entrevista a Natália Garcia, especial para o iG São Paulo

coen_igQuando cheguei ao templo da Monja Coen, na zona oeste de São Paulo, fui recebida por sua assistente, que me mostrou a sala de meditação. Sentada no tatame, tentei revisar as minhas anotações antes que a entrevista começasse, mas um latido forte de cachorro roubou minha concentração. Ele estava preso atrás de uma grade, e eu podia ver os primeiros degraus de uma escada – foi por ela que Coen desceu para me receber. "Mas com esses latidos como é que a gente vai conseguir gravar a entrevista?", disse ela, sorrindo. A monja me perguntou se eu tinha medo de cachorro, eu disse que não. Soltou Godolfredo, um labrador de quatro anos, para ver se ele corria para fora e se acalmava. Mas o bicho nos surpreendeu: correu sim, mas em minha direção, e mordeu o meu rosto.

Entrevista? Que nada. O sangue que escorria foi lavado rapidamente no banheiro. Ela me colocou em seu carro e fomos direto para o hospital mais próximo, no qual passamos algumas horas juntas. E foi nesse contexto tenso, capaz de tirar qualquer dona de um cão agressor do sério, que a atitude zen dessa mulher se destacou. Na prática, a monja atesta sua teoria.

"Sobre o que mesmo era nossa entrevista?", ela perguntou durante o trajeto. Expliquei que seria uma matéria com dicas para um ano-novo mais zen. Antes de começar a discorrer sobre o tema, ela me contou que o ano-novo possui um significado bem diferente em países do hemisfério norte. Lá, ele é uma preparação para o fim do inverno e chegada da primavera, é o fim da ausência de vida e o renascimento da natureza, nas flores, frutos e animais. Por esse motivo, é tradição japonesa realizar uma faxina em casa no período, como forma de renovação. No Brasil, mesmo com o ano-novo sendo recebido em outro contexto – afinal, estamos no auge do verão – o espírito de renovação também é comum. Sempre queremos dias melhores, diferentes aqueles deixados para trás.

Para Coen, o primeiro passo em busca de um ano-novo realmente satisfatório tem a ver com definir o que você quer. Imagine uma situação fantasiosa: se um gênio da lâmpada aparecesse hoje na sua frente, o que pediria para ele? Pense rápido, e se não conseguir responder, então é hora de parar e refletir. Depois volte para realidade e pondere o alcançável e praticável. "Muitas vezes, as pessoas se propõem metas absurdas e difíceis de cumprir", diz ela, que destaca a importância de viver todos os dias com presença, fazendo cada coisa de uma vez. Por exemplo: "se estou trabalhando, devo estar inteiro em minhas atividades, se estou em casa, não devo ficar pensando no que preciso fazer no dia seguinte".

E foi com essa presença que a monja conduziu o seu carro até o hospital. Mesmo diante de um trajeto tumultuado (com trânsito, buzinas e sangue escapando do curativo), ela seguiu leve o suficiente para se encantar com as crianças que andavam pela rua. No pronto-socorro, enquanto esperávamos pelo atendimento, inventou um jogo que distraía a mente: tentava adivinhar as doenças de cada paciente, como era a relação dos médicos entre si, em qual sala me atenderiam, nada escapava de seu olhar atento – a sala, ao menos, ela acertou.

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Quando finalmente fui atendida, o médico me explicou que não deveríamos ter feito um curativo, já que ele retém umidade. Monja Coen, que tinha entrado no consultório comigo, sorriu demonstrando estar satisfeita por ter aprendido uma coisa nova. Eis a diferença entre perfeccionismo e excelência. Segundo ela, o perfeccionista é aquele que, diante de um resultado insatisfatório de seu trabalho, fica incomodado ou irado com os próprios erros. Excelência, no entanto, é saber que você deu o seu melhor e ter a consciência de suas falhas, de seus erros, procurando sempre melhorar. Ela avisa que é com esse espírito, o da excelência, que devemos encarar 2011.

Mais equilíbrio e paz no dia a dia
A prática meditativa que os zen budistas adotam para desenvolver o autoconhecimento é o zazen. O exercício consiste em sentar-se com a coluna ereta, de frente para a parede (sem estímulos visuais), com consciência em todo o corpo (até as mãos e a língua possuem uma postura correta) para, então, observar-se de fora. "É aí que percebemos as origens das nossas emoções, que nos entendemos melhor", explica Monja Coen. Há algumas dicas práticas para aumentar nossa presença em tudo o que fazemos, são elas:

- A cada hora do dia, pare e faça uma respiração consciente. Pare tudo, feche os olhos, inspire pelo nariz, sinta o ar entrando, preenchendo os pulmões, purificando seu corpo, expire aos poucos, sem pressa, até esvaziar todo o pulmão, sinta o prazer proporcionado por essa respiração, e então volte ao que estava fazendo.

- A mente atormentada por pensamentos pode ser acalmada. Ao andar, por exemplo, imagine "pé direito, pé esquerdo". Se for tomar um chá, pense "estou pegando a xícara, que está quente, o chá tem cheiro de camomila, vou encostar a xícara na boca, gosto da textura da porcelana", e assim por diante.