Monja Coen Roshi

Entrevista para o Blog Autoajude-se

Entrevista da Monja Coen para o Blog Autoajude-se de Felipe Brandão

Em seu livro "Sempre Zen" você diz que o segredo da vida é estar aberto ao momento e a todas as possibilidades. É possível estar conectado o tempo todo no Agora?

É impossível não estarmos no Agora. Entretando nossa mente  simula um antes e um depois e acreditamos nessa ilusão. Assim, quando acreditamos na ilusão da mente ficamos deludidas, deludidos. Cremos no falso. E com isso sofremos. Entretanto, ao não apercebermos, reentramos no instante presente. Chamo a isso de Presença Absoluta.

 

Para o filósofo francês André Comte-Sponville a felicidade é algo inalcançável, pois desejamos tanto algo e quando conseguimos paramos de desejar. Você acha que a felicidade é algo surreal? Seria algo inalcançável?

Depende do que chamamos de felicidade. A palavra tem a mesma origem de fértil, de frutífero.
No Budismo falamos em alcançar um estado de completude, de tranquilidade, de Nirvana. Esse estado independe do que alcançamos ou não alcançamos. É transcender o mundo dos apegos.
Perceber que desejamos algo, que obtemos e então passamos a desejar algo mais se refere ao que em Psicologia se chama de "eu ideal" - que está sempre se reformulando. Isso é bom. Não ficamos estagnadas, estagnados. Esse processo em si pode ser de grande contentamento e felicidade.

Como você vê a psicologia e a psiquiatria como auxilio da dor humana?

Psicologia e Psiquiatria são parte da ciência contemporânea. Que bom que existem. Que bom que nós seres humanos somos capazes de compreender um pouco melhor nossa própria mente e a assim obter libertação. Muito da Psicologia e da Psiquiatria atuais têm encontrado afinidades com ensinamentos de Buda e práticas meditativas como auxiliares de curas ou prevenções de doenças, tanto físicas como emocionais.
Antigamente religiosos, oráculos, curadores, usavam da sabedoria superior para auxiliar seres humanos a lidar melhor com suas dores e curar os males do mundo.
Acredito na Ciência. Acredito nas descobertas e nas parcerias entre Ciência e Religião.

Se todo o sofrimento nasce do desejo. Como não desejar numa sociedade tão consumista como a nossa, onde ser e ter quase se equivalem em termos?

Desejo é uma coisa. Apego é outra. O sofrimento surge do apego e não do desejo natural e simples em si mesmo. Posso perceber meus desejos, por qualquer coisa ou pessoa. Posso desejar ter um templo, por exemplo. Posso desejar me alimentar melhor. Posso desejar alcançar a iluminação suprema. Posso desejar consumir de forma responsável.
Apego é como se passasse melado, cola na mão. Ficamos grudados, limitados, causamos sofrimento e sofremos. Livrar-se dos apegos é estar satisfeita, satisfeito com a realidade tal qual é.
Ma isso também não implica em não termos sonhos, objetivos, planos, ambições benéficas. O ponto principal do consumo é que seja responsável.Que avaliemos a quem estamos beneficiando, ou não, com nossas escolhas.

Buda dizia que "A vida dos seres humanos é como o processo de tecedura, termina o trabalho com delicados fios, tecidos do inicio ao fim." É possível encontrar paz e leveza mesmo em situações de extrema dor?

Esta tecetura é sutil e está interligada a tudo e todos. Vemos hoje no Japão, com a catástrofe do terremoto, do tsunami e da possível contaminação nuclear uma situação de grande dor e tristeza.
Ao mesmo tempo notamos como as pessoas se unem, se cuidam, cozinhando, limpando, carregando baldes, fazendo escalda-pés para os idosos.O trabalho de reconstrução e a ajuda que podemos fazer juntos. Trabalho de Bodisatva. Do não eu. O eu não fica em primeiro lugar. Percebemos o todo. Nossa dor e sofrimento não são únicos. Saímos do casulo imaginário de um eu separado e passamos a cuidar do todo, da vida. Ao cuidar da vida cuidamos de nós mesmas.
Até no sofrimento, na extrema dor podemos encontrar paz e leveza.Apreciar a experiência única da vida humana, com todas suas nuances e sorrir ao novo amanhecer.

Eckhart Tolle em seu recente livro "Um novo mundo – despertar de uma nova consciência" explica que a humanidade está vivendo um momento único, o despertar para uma nova consciência. Você sente essa transformação?

Acredito que todos sentimos. Acredito também no DNA humano. Este DNA quer continuar vivo.Para sobreviver se fazem necessárias mudanças de consciência. A percepção do eu maior. De que semos a vida da Terra. Somos a vida da superfície da Terra. A nossa sobrevivência, como espécie, depende de nos cuidarmos mutuamente. Tanto entre seres humanos como entre seres humanos e todas as outras formas de vida, que são nossa própria vida. Esta mudança de um povo apenas, o povo da Terra, está ocorrendo. Além de fronteiras, de etnias, de culturas - necessárias e belíssimas na sua diversidade - também nos percebemos interligados e interconectados a tudo e todos. Assim cuidamos da vida com ternura e respeito. Esta a mudança de consiência mais importante: somos a vida da Terra.
Não há nada por que matar ou morrer. Mas há o viver para o bem de todos os seres.

Como viver sempre Zen no mundo atual?

Estando presente no mundo. Este mundo é bom. Este mundo é lindo. Como dizia Buda "minha Terra Pura jamais será destruída."
Podemos fazer de cada instante a sacralidade da vida. Depende de cada um, de cada uma de nós. 
Respiração consciente. Foco, atenção. Concentração e Zen - meditação. Além do eu e do não eu. Samadhi profundo. Identificação com o todo. Ação local que beneficia. Testemunhar e agir amorosamente. Sem apegos e sem aversões. Intersendo.

O sociólogo Eduardo Giannetti diz que sem o auto-engano a vida seria excessivamente dolorosa e desprovida de encanto. Vivemos o tempo todo na tentativa de enganar a morte? Vivemos nesse auto-engano?

Não me parece que queiramos enganar a morte.

A morte é necessária e bem vinda. Precisamos perceber que vida-morte é de suprema importância. Temos de compreender, penetrar neste processo incessante de viver-morrer.
É claro que não caímos na inação pensando "já que todos vamos morrer não faço nada". Pelo contrário, temos de nos lembrar que vamos morrer sim, mas também que a vida é eterna. A vida, em suas múltiplas faces, continuará a se manifestar. Outro aspecto importante é da interligação entre tudo - passado, futuro, presente. E as relações entre o que falamos, pensamos e fazemos, que altera a tecetura da vida. Assim, sentindo-nos co-responsáveis pela realidade que vivemos, como fazer destes breves instantes uma tecetura de beleza e de ternura iniqualáveis?

Sabemos que a vida é dinâmica. Como lidar com essas mudanças? Ao mudar, mudamos tudo ou é a mudança que nos muda?

Mudamos e somos mudados. Transformamos e somos transformadas. Nada fixo, nada permanente.
Mestre Dogen Zenji Sama (fundador da tradição Soto Zen Budista no Japão, século XIII) escreve:
"Algumas vezes a flor do Darma nos gira (transforma). Outras vezes nós giramos a flor do Darma. E há momentos que a flor do Darma gira a flor do Darma."
Há momentos em que a mudança muda a mudança.
Mágico, belíssimo é entrar na correnteza e fluir com o fluir da vida.

O que você acha de livros de Autoajuda? O que achou do blog Autoajude-se?

Auto ajuda. Ajudar a si mesmo, a si mesma. Se não quisermos nos ajudar, como fazê-lo?
Vivemos nesta teia de interrelacionamentos. Somos a tecetura. Precisamos tomar responsabilidade por nossas vidas e procurar ensinamentos, práticas que nos permitam nos conhecer em profundidade para podermos fazer escolhas adequadas.
Seu blog Autoajude-se é muito bom e inspirador.
Espero que inúmeras pessoas possam compreender e penetrar a essência do ser e assim encontrar o Caminho Iluminado.
Parabéns e obrigada por me incluir

Mãos em prece
Monja Coen