Monja Coen Roshi

Bota Fé

Entrevista com a Coen Sensei no blog da Anelise - Manhê...abaixa o som!

monjajovem

"As religiões patriarcais reconhecem a mulher como um ser religioso através da maternidade, assim sacralizada. Idealmente a maternidade nutre e cria - conectando mães e filhos. O Hinduísmo santificava mulheres devido ao poder na possibilidade de procriar varões. No Budismo, a mãe está fora da ordem e não é sagrada. Mães eram sofredoras e estavam sempre oferecendo em dor suas vidas - como se fosse natural para as mulheres o sofrimento.

No Budismo Mahayana, as imagens vão além do maternal. Podendo representar a perfeição da sabedoria, a benção, a compaixão, a instrutora e a amiga que revela o mundo da verdade aos filhos. O ideal feminino não é o da sagrada mãe. A maternidade é um obstáculo para o maior envolvimento religioso: as mães ficam muito ocupadas com os filhos e não podem renunciar à família em nome da religião."

Começamos por aí mesmo: refletindo a maternidade em meio à sacralização ou profanação da mulher em tradições religiosas. Quem mais desenvolveria tão tranquilamente todas essas questões senão uma autoridade no assunto?

Monja Coen: vive e sofre e ama - ao mesmo tempo e na mesma face da moeda. Missionária da tradição Soto Zen Shu, com sede no Japão. Mãe da Fábia e avó da Rafaela. Ordenou 27 monges e monjas e transmitiu os preceitos budistas (não fazer o mal, somente o bem a todos os seres) à mais de duzentas pessoas comprometidas em viver seguindo o Caminho Iluminado de Buda. Mesmo atarefada com tanta "filharada", seus esforços em transmitir preceitos elevados e tão bem refletidos têm gerado resultados práticos e precisos.

Bota fé?

Você acredita, em alguma instância, que a maternidade tenha esse papel de sacralização da mulher?

Sim. A vida é sagrada. A mulher ainda é o útero sagrado da criação, onde seres humanos são gerados. Fonte de vida.

Como funciona o papel da mãe como aquela que se sacrifica pelos filhos?

Mãe não deve se sacrificar pelos filhos. Deve ser feliz em cuidar e nutrir, educar e orientar. Junto com o pai, com amigos, amigas, professoras e professores, parentes. Filhos e filhas são de toda a sociedade e não apenas das mães. A palavra sacrifício é interessante - o sagrado ofício de ser mãe, não implica em sofrimento, dor, renúncia. O sagrado ofício da sua escolha, que traz preocupações e alegrias também. Há mães que não puderam procriar, mas que adotam filhos e filhas. Qualquer mãe que use a manipulação de dizer a um filho ou filha que "veja como eu me sacrifiquei por você" ainda não adentrou o verdadeiro coração do amor incondicional.

Socialmente parece haver um inconsciente coletivo ditando à mulher esse papel da "sagrada mãe". Dá para considerar como um fator limitador da mulher (quando se torna mãe) esse tipo de distinção?

Se tudo é sagrado, nada é sagrado. A mãe sagrada acaba sendo uma imagem do coletivo. Nem todas as mães conseguem cuidar de seus filhos como a imagem coletiva se propõe. E, muitas podem se sentir culpadas nos momentos em que se impacientam com suas crianças. Importante lembrar de que é preciso compartilhar: a guarda, a educação, o cuidado da prole. Não pode ser apenas da mulher. Mãe também é filha, irmã, neta, prima, esposa, amiga.

Você sempre foi budista?

Nasci numa família Católica Apostólica Romana. Aos 13 anos comecei a questionar os dogmas de fé. Acabei me afastando das práticas católicas, mas nunca do questionamento interior: o que ou quem é Deus? O que é a vida e a morte? Qual o sentido da existência? E justamente esse questionamento me levou à meditação, ao Zazen e ao Budismo.

De que maneira sua crença religiosa a ajudou a ser uma mãe melhor?

Deixei de exigir de mim e de minha filha o que não podemos ser. Capacidade de me acolher e de acolher a ela. De compreender a vida, esta tapeçaria incrível que estamos tecendo com nossas próprias experiências. Aprendi a apreciar cada instante em que estamos juntas e não me lamentar, resmungar, reclamar. A deixar passar mágoas e culpas, rancores e tristezas. Viver o agora com plenitude.

Como foi, no seu coração de mãe, quando você foi viajar para estudar e obter sua ordenação de monja? Quanto tempo ficou separada da sua filha e quantos anos ela tinha nessa época?

Foi difícil, doloroso e triste me separar da minha filha. Sentia e ainda sinto uma saudade infindável. Saudades dos anos todos que não compartilhamos. Ela tinha sete anos de idade e era a menina mais linda do mundo. Eu trabalhava demais. Era jornalista, repórter do Jornal da Tarde. Praticamente só nos encontrávamos na hora do almoço, quando comíamos juntas e depois eu a levava à escola. Minha mãe ou meu pai iam buscar. Nós nos amávamos muito. Pensei em ir primeiro e depois a ter comigo lá na Inglaterra. Mas não foi possível. Havia uma procura interna intensa. Minha mãe e meu pai prometeram cuidar bem da menina para que eu pudesse ir à minha jornada, à procura de mim mesma.

E quando se reencontraram? Foi necessário reconstruir a relação mãe e filha ou ela sempre existiu entre as duas muito naturalmente, independentemente da distância e do tempo?

Ainda estamos reconstruindo nossa relação. Aliás, todas as relações devem ser sempre reconstruídas. Há tanto que não sei sobre ela. Há tantas coisas que ela sabe e eu desconheço.

Quando conheci a Fabia, demorei para saber que ela era sua filha. Até porque esse não era necessariamente um assunto recorrente entre nós. Mas lembro da maneira carinhosa e admirada com que ela falava da mãe na primeira vez em que mencionou você (numa conversa sobre filhos). E depois de alguns anos fui reencontrá-las juntas, como duas amigas de braços dados que conversavam com tanta cumplicidade...fiquei emocionada ao ver. Como é hoje a relação?

Há amor recíproco e profundo. E nos compreendemos em nossas escolhas e caminhos. Ela compreendeu minha vocação e minha vida religiosa e eu compreendo suas escolhas pessoais. Brincamos juntas, sorrimos, refletimos sobre a vida, política, meio ambiente, futebol, espiritualidade, budismo, psicologia. Ela é psicóloga. Nós nos entendemos bem.

E ser avó? É muito diferente de ser mãe?

Não quis ser a avó que tira a filha da mãe. Isso foi algo que a Fábia me pediu sempre. Então, minha participação como avó ficou limitada. Além do mais minha ocupação monástica exige muitas horas. Minha neta sabe que nem sempre estarei presente em seus aniversários e natais, assim como minha filha, mas também sabe que estou aqui para ela, para elas, naquilo que for essencialmente necessário e verdadeiro. Ambas receberam os Preceitos Budistas e se comprometeram através de mim a seguir o Caminho de Buda: não fazer o mal, fazer o bem, fazer o bem a todos os seres. Nós nos confidenciamos mutuamente e confiamos umas nas outras nas tomadas de decisões. Minha neta é linda e inteligente, saudável. Que benção!

Quando somos mães de mulheres nos tornamos geradoras de filhas que serão mães e assim por diante, então esse ciclo poderá ter continuidade enquanto nascerem mulheres de outras mulheres. Como você vê essa relação da mulher como mãe de outra mulher?

Dizem alguns biólogos que temos uma ancestral comum - toda a humanidade - filha de uma mãe comum. Isso eu não sei dizer. Nós mulheres somos mais exigentes e duras com as outras mulheres do que com os homens. Mulheres brigam pela liderança da casa, da prole, do controle. Precisamos aprender a ser parceiras e cumplices na vida. Isso acontece com a maturidade. É bem interessante.

No livro "Coisas de mãe para filha" você começa já dizendo que esta morrendo. Chama a atenção que você não fez o caminho inverso de dizer que estava vivendo a cada segundo. O que queria dizer com essa mensagem para sua filha?

Não há nada fixo, nada permanente.
Não vou estar aqui para sempre.
Cada minuto de vida nunca é mais, é sempre menos.
Vamos apreciar o agora.
Vamos ser felizes agora.
Vamos fazer o melhor de nós mesmas neste momento, em cada instante.
Não há um depois...
Viver-morrer é uma unidade.

Depois li o texto sobre a morte de sua mãe (no blog) fiquei admirada com a ênfase na sua gratidão infinita pela vida, pela educação e pelos cuidados. Quais são suas lembranças com relação à sua mãe e à educação que ela te deu? O que aprendeu de mais importante com ela?

A poesia. Minha mãe era poetiza e declamadora. Ela me ensinou a refletir, ela me politizou com as poesias sociais. Mais do que tudo ela me amou e me respeitou como ser humano inteligente. Minha mãe era maravilhosamente suave e forte. Um ser humano integro. Mulher que tinha carro, guiava, trabalhava fora de casa e em casa nos guiava com sabedoria e carinho.

Qual sua opinião sobre criar os filhos dentro da religião seguida pelos pais?

Filhos e filhas devem escolher sua religião. Claro que se a mãe e o pai são devotos irão levar os filhos e filhas juntos para seu local de prática. Isso é natural. Agora, as crianças se tornarão adultas e terão de fazer suas escolhas. É preciso confiar que educaram suficientemente bem e assim confiar nas decisões por eles tomadas.

Como podemos criar oportunidades para a criança vivenciar a espiritualidade? Você acha isso é importante?

A espiritualidade não está separada de nossa vida diária. Acredito que meditação deva ser ensinada desde os mais tenros anos de vida. Não no sentido desta ou daquela religião, mas no sentido de conhecer a si mesma, conhecer a mente humana, conhecer nossos sentimentos e emoções e poder escolher, discernir de forma adequada. Mais do que educar através de uma religião é educar valores éticos.

Podemos chamar a atenção dos filhos de outras pessoas?

Podemos levar essa pessoa, esse ser humano à uma reflexão verdadeira sobre o acontecido e não apenas ralhar, dar bronca...

Vivemos tentando amenizar o sofrimento, mas você acredita que o sofrimento nos ajuda no crescimento espiritual? Como os pais podem lidar com essa questão?

O sofrimento existe. Há uma causa. Há um estado além do sofrimento chamado de Nirvana. Há um Caminho. Isso são ensinamentos de Buda. Estamos próximos quando filhos e filhas sofrem. Sentimos sua dor através da compaixão, da empatia e procuramos meios expedientes para amenizar a dor e o sofrimento. Imagine que toda a humanidade são seus filhos e filhas. Como minimizar dor e sofrimento? Como transformar uma cultura de violência em uma cultura de paz e não violência ativa?

Criar filhos seria um ato em prol da paz, uma vez que procuramos criar seres responsáveis e ativos que percebam como o todo interage e como tudo esta interconectado?

Sim, tudo está interconectado. Educando valores estamos educando para a paz. Crianças e adultos, alunas e professoras - todos e todas estamos aprendendo juntos a cultura de paz.

E é assim também, sempre em paz, que ela se despede nos emails e dessa entrevista:

Gassho (Mãos em prece)