Monja Coen Roshi

Deve-se viver a vida com plenitude

Monja Coen
Monja Coen: "Deve-se viver a vida com plenitude..."

Entrevista à Revista Kalunga

Cláudia Dias Baptista de Souza nasceu em 30 de junho de 1947, no berço de tradicional família paulistana. Prima de Sérgio Dias Baptista, que ganhou notoriedade com a banda Os Mutantes, casou-se aos 14 anos, em busca da própria independência. Em 1983, ela mudou o rumo de sua vida ao se ordenar monja zen-budista, em Los Angeles, na Califórnia (EUA), e assumir o nome de Monja Coen, como é mais conhecida.

Foi a primeira mulher, a primeira monja e a primeira de descendência não japonesa, a assumir a Presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil. O que a atraiu para o Zen-Budismo foram o zazen e os ensinamentos do Mestre Dogen (1200-1253), que escreveu: "Estudar o Caminho de Buda é estudar a Si mesma, estudar a Si mesma é esquecer-se de Si mesma, esquecer-se de Si mesma é ser iluminada por tudo que existe."

Qual a motivação para dedicar a sua vida à prática zen?

Eu comecei a praticar o zazen como uma forma de meditação, que é um processo de autoconhecimento. Estava morando em Los Angeles, quando pedi para me tornar monja. O meu professor questionou a respeito do meu pedido, afinal eu vinha de uma família cristã, católica. Eu respondi a ele que esperaria o tempo que fosse necessário. Depois de três anos de práticas de meditação, ele me concedeu a ordenação monástica. Fui para o Japão onde fiquei enclausurada em um mosteiro feminino. Apesar de muito agradável, essa fase foi difícil porque eu não conhecia a língua e a cultura japonesa. Tive dificuldade de adaptação, mas superado isso, fiquei oito anos no mosteiro, sendo que a previsão eram cinco anos.

E o que fez quando retornou ao Brasil?

Quando regressei, fui atender a colônia japonesa do bairro da Liberdade (em São Paulo), na sede construída na década de 1950. Embora muitas mulheres da comunidade gostassem que eu dirigisse as cerimônias, passei a ser discriminada, inclusive por esposas de outros monges. Nessa época eu era a líder da comunidade. Hoje, se alguém me discrimina, dou risada.

Como nasceu o Templo SotoZen Budista Taikozan Tenzuizenji?

Eu fiquei seis anos na Liberdade. O templo ia de vento em popa, mas as pessoas da colônia japonesa começaram a dizer, "os brasileiros vão roubar o templo, vamos chamar um homem japonês e mais velho para tomar conta". E chegou um professor do Japão. Ele pediu para eu sair, porque não podia ter duas lideranças. Primeiro alugamos uma sala perto do Hospital das Clínicas, ficou pequena; viemos então para a casa localizada no bairro do Pacaembu. Esse templo está ficando pequeno também.

A prática da meditação não é mal entendida pelas pessoas?

É verdade. As pessoas têm uma ideia errada do que é meditação, isso impede o próprio processo meditativo. A meditação é a mente com a própria mente. É você com você mesmo. Tudo o que surgir na sua mente faz parte. As pessoas pensam: "Eu não posso pensar". Só de pensar que não podem pensar, já estão pensando. É preciso transcender essa mente dualista, e se transcende através da observação de si mesmo, do movimento da mente, de quantos estímulos se tem em um dia. Por exemplo, uma pessoa antes de dormir faz um processo meditativo de tudo o que foi estimulado durante o dia. Todo começo é difícil. A prática é a iluminação, a realização. Não tem uma coisa que vai acontecer depois da prática. A prática em si é o objeto final.

Como é o dia a dia de uma monja?

Após despertar realizo a meditação matinal, depois faço a leitura de sutras e, em seguida, tomo o café da manhã. Sigo com a limpeza do templo, atendimento às pessoas, escrevo textos, dou aulas. Geralmente sou chamada para dar palestras em faculdades e universidades, ou ainda, em empresas. Além disso, faço casamentos, enterros, serviços memoriais, preces para as pessoas, aconselhamento. Na nossa ordem não existe a confissão. O aconselhamento é uma espécie de entrevista privada. A pessoa fala de suas dificuldades, falhas e acertos, sempre em confidência.

No que implica o voto monástico?

O principal é não fazer o mal, fazer o bem a todos os seres. Esse é o princípio básico do Budismo e de todas as religiões. Não fazer nada que seja prejudicial a si e aos outros seres humanos, nem à natureza. Às vezes, falhamos, mas nos arrependemos, no sentido de dizer "vou ficar mais atenta para não cometer mais esse erro". Somos humanos, temos as nossas falhas, elas são processos de aprendizado.

O zen-budismo permite o casamento?

Todas as tradições de origem japonesa permitem o casamento monástico; quem não o faz são os tibetanos, os chineses, os coreanos, os budistas da Ásia do Sul. Nesse caso, eles fazem os votos de castidade e do celibato. Aqui, o casamento é incentivado, de maneira que se possa atender melhor a comunidade. O meu marido morreu, no momento eu não sou casada.

Em um mosteiro, impera um clima de harmonia e paz o tempo todo?

É uma irmandade, mas às vezes temos dificuldades de relacionamento. Minha superiora dizia que uma pessoa só está em um nível mais avançado, quando se relaciona bem com todas as pessoas. Não só com aquelas com quem tem afinidade.

Por que as pessoas tendem a padecer tanto com o encerramento dos ciclos no budismo? O que é possível aprender com eles?

Às vezes, ficamos em uma situação conhecida, confortável, cômoda, e quando vem a mudança, a gente lamenta. Eu não queria que mudasse; tenho medo desse novo, que é o desconhecido. É preciso abrir mão de apegos e de aversões. Quando se consegue ficar livre disso, as coisas mudam. A pessoa tem flexibilidade de mudar com elas. Não é mudar o ensinamento, e sim o comportamento, para que seja sempre de harmonia.

Na busca do autoconhecimento, muitas pessoas se perdem no meio do caminho?

É uma questão de maturidade. Nem todos têm o mesmo ritmo de crescimento e aprofundamento sobre o significado da vida. Há pessoas que morrem sem nunca ter acessado a verdade, compreendido o que é essa existência, e há outras que crescem e amadurecem, dão frutos doces. Vai depender muito das causas e circunstâncias, da própria pessoa ir à procura desse caminho.

Quais os venenos da sociedade moderna?

São três: a ganância, a raiva e a ignorância. Eles pegam qualquer um de nós, seres humanos. A ganância, o "eu quero", "quero mais", "eu preciso". A raiva, quando a pessoa está cheia dela faz qualquer coisa, inclusive mata o outro. A ignorância é não estar em conexão com a verdade. Quando a pessoa se liga com aquilo que é verdadeiro, real, não tem ganância, nem raiva, porque acolhe essa realidade como ela é. Por isso, não adianta querer que os outros mudem. Eu começo a mudar e a minha mudança começa a mexer na trama da vida, porque estamos todos interconectados.

A pessoa que não se deu conta das oportunidades de transformação, após a morte tem a possibilidade de despertar para essa verdade?

A minha professora de sanga diz que quem não entende a lição, repete de ano. As pessoas pedem que os monges rezem para aqueles que morreram. Espera-se que durante a vida eles tenham despertado. Oramos para que esse ser alcance a sabedoria suprema. O corpo em si não vai alcançá-la porque será cremado ou enterrado. No Budismo, não acreditamos em um espírito que seja eterno. Oramos para que a energia vital que foi desse ser humano alcance essa luz verdadeira. Caso contrário, ela vai renascendo até aprender.

Como é comemorada a passagem do ano no Budismo?

Primeiro, limpamos a casa toda. Uns dez dias antes fazemos uma super faxina, inclusive dos altares. Isso ocorre em todos os templos japoneses. Na noite do dia 31, meditamos e depois é tocado o sino 108 vezes, que correspondem aos 108 obstáculos da iluminação, aos 108 portais e as 108 oportunidades de prática de acessar essa mente iluminada, sábia. Damos boas-vindas ao Ano Novo, para que tenhamos sabedoria para superar esses obstáculos. Exatamente à meia-noite comemos o toshikoshi soba, ou seja, o macarrão da passagem de ano. Ao colocá-lo na boca não se pode cortar o fio, para que a vida e os projetos tenham continuidade no ano que se inicia.

Para a grande maioria esse período traz a esperança de um novo tempo, em que encontrará alívio ou resposta para as indagações...

Em vez de olhar para aquilo que não concluiu, é melhor olhar para o que realizou. "Olha, o que eu consegui fazer este ano, e quantas coisas eu ainda poderei fazer daqui por diante". A pessoa pode olhar para o mundo e ver o que tem de defeito ou o que ele tem de bom. É preciso a mudança desse olhar. O que não se deve é estabelecer muitas metas. Deve se viver a vida com plenitude, dar o seu melhor em qualquer circunstância. Esses são os votos verdadeiros, o restante são superficialidades que vêm a partir disso. É necessário encantamento, apreciar cada instante da vida que é tão curta, tão breve, e apreciá-la com as suas múltiplas provocações. Estar presente para poder responder de forma sábia, adequada, amorosa, a todas elas. O Ano Novo nos proporciona isso, vamos procurar novos caminhos e novas formas, mas não queremos perder aqueles caminhos bons que conhecemos.