Monja Coen Roshi

Monja Coen Sensei fala sobre como ampliar os horizontes corporativos

Do site da Amcham

Coen Sensei

A monja zen budista Coen Sensei, missionária da tradição Soto Shu - Zen Budismo japonesa participou do comitê aberto de Secretariado Executivo, realizado na Amcham-São Paulo no dia 16/01/2013. Para ela, "quem quer sobreviver na corporação, precisa fazer amigos, porque [os colegas de trabalho] são pessoas com quem convivemos mais tempo do que com a própria família".

"O que ainda existe no nosso mundo corporativo é a competição, que causa muito desconforto e muito estresse. Somos times, equipes, e não um agregado de pessoas individualistas que se sobressaem umas às outras."

Amcham: Como ampliar os horizontes corporativos a partir da filosofia do zen?

Monja Coen: O que ainda existe no nosso mundo corporativo é a competição, que causa muito desconforto e muito estresse. A ideia de ampliar os horizontes corporativos é de como compartilhar mais e colaborar melhor uns com os outros. O que muitas pessoas não percebem é que somos times, equipes, e não um agregado de pessoas individualistas que se sobressaem umas às outras. A grande mudança é passar a olhar o nós, e não o eu.

Amcham: Promover essa mudança de olhar depende de cada indivíduo ou do coletivo?

Monja Coen: É tanto um trabalho individual como coletivo. Todos os departamentos de recursos humanos das empresas têm que trabalhar com isso. E cada um de nós também tem que perceber isso. Houve um momento em que o indivíduo era especial, com uma carreira separada dos outros. Isso não existe mais. Se não sei me relacionar bem com a minha equipe, como é que ela vai funcionar? Criar relacionamentos mais humanos, mais sensíveis uns aos outros, é fundamental. Quem quer sobreviver na corporação, precisa fazer amigos, porque [os colegas de trabalho] são pessoas com quem convivemos mais tempo do que com a própria família.

Amcham: Mesmo assim ainda há quem goste da competição selvagem. Como podemos reagir a esse tipo de abordagem que vem do outro?

Monja Coen: Eu costumo falar que não precisamos reagir, mas agir. A reação é algo que sai quase naturalmente. Para que haja transformações verdadeiras é preciso usar a própria inteligência. Porque quando alguém age mal conosco não pensamos "que bom, tudo bem porque estamos juntos". Essa não é a nossa reação natural. Trabalhar o emocional permite transformar o que seria a raiva em compaixão, em compreensão mais clara do porquê de este ser humano ainda vive neste paradigma de achar que a competição é tudo, que tem sempre que mostrar o que está fazendo e se exibir para o outro. O que produzimos de verdade fica transparente e todos podem ver. Não perceber isso é imaturidade.

Amcham: Quais as receitas para enfrentar todo o estresse, a tensão e a ansiedade do mundo corporativo?

Monja Coen: Eu trabalho com a respiração consciente. A coisa mais simples que existe é perceber que todas as nossas emoções passam por um processo respiratório. Não podemos controlar os sentimentos, mas podemos, sim, controlar a respiração. Ao controlar a respiração, é possível ver quando algo nos tira do sério. Em vez de surtar e criar uma situação desagradável à equipe, observe como está a respiração e trabalhe para que ela esteja equilibrada, a fim de resolver a situação de forma mais adequada. Não é fácil! (Risos) Muitas pessoas nos tiram desse centro de equilíbrio, mas é preciso encontrá-lo novamente porque esse centro de equilíbrio é o que permite a resolução dos problemas e das dificuldades de forma a beneficiar o grupo.

Amcham: Qual o segredo para encontrar esse ponto de equilíbrio?

Monja Coen: Mais do que psicológico ou espiritual, ele é fisiológico, e está ligado à postura, à maneira de sentar-se. Perceba que quando temos tristezas ficamos com o corpo arqueado. Quando ficamos com raiva, o diafragma fica contraído e a respiração, presa. A respiração consciente ajuda a abrir o ombro e o diafragma.

Amcham: Esse tipo de trabalho requer constante prática, não?

Monja Coen: Nós somos aquilo que praticamos. Se queremos chegar a algum lugar, é preciso praticarmos para chegar lá. Não devemos pensar que um dia eu vou conseguir alcançar o que quero. Ao praticar, já estou conseguindo. Quem quer ser um corredor tem que correr, e não somente estudar os livros de corrida porque eles não servirão para nada se essa pessoa não colocar um tênis e ir para a rua.

Amcham: Alguns anos atrás, uma reportagem de um jornal espanhol mostrou que executivos estavam recorrendo ao zen budismo para aprender a enfrentar, com mais tranquilidade e equilíbrio, os efeitos da crise. O que isso demonstra?

Monja Coen: Um dos ensinamentos principais de Buda é ver a realidade como ela é. Precisamos saber como podemos atuar nesta realidade de maneira que não seja algo pesado. Como tornar essa carga de trabalho mais leve? No mundo empresarial, muitas pessoas buscam por meio de processos meditativos uma maneira mais tranquila de estar no mundo, lembrando da imensidão do universo sem ficar apegado às coisas menores, isto é, trabalhar no local sem esquecer o global. O caminho não é difícil se não houver apegos nem aversões. Mas é difícil desapegar.

Amcham: O zen budismo pode servir para qualquer trabalhador? Quem deve aderir com mais urgência: os chefes ou os empregados?

Monja Coen: O zen budismo serve para todos. Não existe uma chefia sem subordinados. E estes, se não tiverem um bom líder, não vão funcionar. É como uma orquestra em que todo mundo tem que estar afinado. De que adianta um bom maestro se os músicos não sabem tocar, não ensaiam ou brigam entre si; e de que vale um time de excelentes músicos se o maestro reger de forma errada.

Amcham: Há um aforismo de Buda que diz que "os homens perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem dinheiro para recuperar a saúde". Esse tema ainda é bastante atual, mesmo 2500 anos após o surgimento de Buda?

Monja Coen: Nos envolvemos tanto nas coisas menores da vida e acabamos por perder o que é essencial. O nosso sistema vital, o nosso organismo precisa do contato com outras formas de vida e com o ar puro, precisa de um repouso saudável. Tem quem se envolva tanto com o que faz que dorme e sonha com o trabalho, acaba ficando aprisionado ao emprego e termina doente. O que Buda ensinava é o caminho do meio, sem extremos. Não devo me dedicar tanto ao trabalho a ponto de deixar de cuidar de mim, da minha família e das coisas que eu gosto, nem vou deixar de trabalhar de forma equilibrada. Nós aprendemos a gostar de trabalhar – e trabalhar e competir são coisas boas. O que não podemos é ser engolidos por isso. Não somos super-homens, temos limites. E é importante conhecermos nossos limites – não de modo que nos imponham barreiras, mas que nos deem uma parâmetro de onde parar e onde prosseguir. Isso é consciência, é a lucidez, é o despertar que chamamos no budismo.

Amcham: Olhando para o público de secretárias, como é o caso deste comitê da Amcham-São Paulo, qual a melhor forma de buscar equilíbrio e atitude positiva, mesmo com as adversidades dessa carreira?

Monja Coen: O segredo é entender as pessoas. As secretárias têm uma habilidade muito interessante de conhecer o chefe, onde ele está e o que está acontece com ele. Ela é capaz de saber se ele dormiu bem, se está com problema em casa ou se os negócios não estão indo bem. Como é que se trata esse ser humano para que ele não fique desesperado também? Conheci uma vez uma secretária que fazia parte de um coral, e ela costumava dizer que frequentava o grupo para se recarregar de energia positiva. Fiquei pensando: a energia positiva que ela diz tem tudo a ver com a respiração, porque para cantar é preciso respirar conscientemente. É o mesmo princípio da atividade física para descarregar a carga de energia negativa em algum lugar. Essas coisas ajudam a organizar uma vida balanceada e, em vez de ficar bravo com o chefe que deu bronca, é preciso entender que aquela pessoa não está bem naquele dia. As secretárias têm um trabalho de psicóloga que é muito interessante.